A crescente aceitação do tabagismo entre jovens
Durante um intervalo escolar, Maria* experimentou seu primeiro cigarro de palha aos 15 anos, em meio a um grupo de amigas onde fumar já era um hábito comum. A adolescente acreditava que poderia parar quando quisesse, mas os anos seguintes mostraram que essa não era a realidade. O que começou com um cigarro de palha logo evoluiu para o uso de cigarros eletrônicos. Essa experiência não é singular; segundo a Pesquisa Nacional de saúde do Escolar (PeNSE), três em cada dez adolescentes em Minas Gerais enfrentam uma situação similar. Especialistas alertam que o consumo de tabaco, agora cada vez mais aceito socialmente, traz riscos consideráveis, principalmente durante a adolescência, quando o sistema neurológico ainda está em desenvolvimento.
Uma pesquisa realizada pelo Ministério da Educação, em conjunto com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revelou dados alarmantes em 2024. O estudo, que foi divulgado no final de março deste ano, diferencia o consumo de cigarros tradicionais dos eletrônicos. Entre os jovens de 13 a 17 anos, cerca de 29,9% já experimentaram vapes, enquanto em Belo Horizonte esse número alcança 31%. O uso de cigarros tradicionais foi reportado por 21,9% dos adolescentes, superando a média nacional de 18,5%. Além disso, outra pesquisa do Ministério da Saúde indicou que o consumo de cigarro cresceu significativamente pela primeira vez em duas décadas, subindo de 9,2% em 2023 para 11,5% em 2024. O aumento mais expressivo foi observado entre os jovens de 18 a 24 anos, que passaram de 6,6% para 13,2% no mesmo período.
A experiência de jovens fumantes em Minas Gerais
Esse crescimento no número de fumantes é visível na história de Anna Laura Gomes, uma estudante de 25 anos. Ela começou a fumar aos 21, mas seu primeiro contato com o cigarro aconteceu aos 17, durante encontros com amigos. O uso, que a princípio era ocasional, se intensificou com o tempo. “O álcool sempre teve um papel importante, pois aumentava meu desejo de fumar. Com o passar do tempo, se tornou uma necessidade diária”, conta Anna. Segundo a professora Deborah Carvalho Malta, da Escola de Enfermagem da UFMG, dois fatores principais explicam esse aumento no consumo: a estabilização do preço do cigarro e a popularização dos cigarros eletrônicos. A redução das campanhas de conscientização também contribuiu para que o tabagismo se tornasse mais aceitável novamente.
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Maria compartilhou como iniciou o hábito: para se integrar ao grupo de amigas, ela começou a fumar, e logo viu isso como um ‘atestado social’ para diversão. “O fumódromo era o local mais ‘cool’ nas festas, onde as melhores conversas aconteciam”, relembra. A transição do cigarro de palha para o eletrônico ocorreu após três anos. O vape se apresentou como uma alternativa mais prática, o que levou a jovem a gastar cerca de R$ 150 por mês. No entanto, o uso se intensificou a tal ponto que Maria passou a dormir com o dispositivo ao lado da cama. “Acordava à noite para fumar, era um sinal claro do vício que se instalou”, confessou.
O impacto dos cigarros eletrônicos
Os cigarros eletrônicos, embora proibidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) há quase 20 anos, atraem muitos jovens devido aos seus sabores e aromas agradáveis. Contudo, especialistas, como a professora Erika Gisseth Leon Ramirez, alertam que esses dispositivos são ainda mais prejudiciais que os cigarros tradicionais. “A composição da nicotina nos vapes é diferente e pode causar efeitos mais intensos em menos tempo”, explica. Renata Gomes, de 32 anos, é uma usuária que sente as consequências de seu vício, iniciado aos 15 anos. “Comecei a fumar como forma de lidar com a ansiedade e o estresse”, revela. Atualmente, Renata gasta cerca de R$ 100 mensais com cigarros eletrônicos e ainda sonha em parar.
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Desafios e políticas de combate ao tabagismo
De acordo com a professora Erika, embora a Política Nacional de Controle do Tabaco tenha se concentrado em campanhas de prevenção e aumento de impostos sobre cigarros convencionais, é imprescindível criar medidas para coibir o consumo de vapes. As cores e sabores atraentes desses dispositivos, somados à falsa sensação de segurança que oferecem, tornam a conscientização mais urgente. A professora Deborah Carvalho Malta destaca ainda a influência da indústria do tabaco, que usa estratégias de marketing, incluindo influenciadores, para promover informações enganosas sobre a segurança dos cigarros eletrônicos.
Por fim, a discussão global sobre a regulamentação do tabagismo ganha destaque com iniciativas de países como o Reino Unido, que recentemente aprovou uma lei que proíbe a venda de cigarros e vapes para pessoas nascidas a partir de 1º de janeiro de 2009. Essa legislação busca impedir que os jovens adquiram esses produtos ao longo de suas vidas. Com isso, espera-se que as novas gerações possam crescer longe do vício do tabagismo.
