Iniciativa Para Aumentar Estoque de Doações
O Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (HC-UFMG), localizado em Belo Horizonte, abriu inscrições para voluntários dispostos a participar da doação de fezes. Este hospital abriga o único Centro de Transplante de Microbiota Fecal do Brasil, além de contar com um dos primeiros bancos estruturados destinados a atender pacientes com infecções intestinais severas.
O principal objetivo desta captação é garantir um estoque adequado do material necessário para procedimentos que visam a recuperação da flora intestinal em pessoas que não respondem a tratamentos tradicionais. O transplante de microbiota fecal é especialmente indicado para casos de resistência ou recorrência de infecções causadas pela bactéria Clostridioides difficile, que provoca inflamações graves no cólon e resulta em diarreias persistentes.
Desde a sua inauguração em 2017, o centro já atendeu aproximadamente 20 pacientes, apresentando uma taxa de sucesso de 90% na cura da infecção, um resultado que destaca a eficácia desse tratamento inovador.
Critérios para Doação
Para se tornar um doador, os voluntários devem ter entre 18 e 50 anos e estar em boa saúde. Não há restrições quanto ao sexo dos participantes. O processo de seleção é rigoroso, visando garantir a segurança de quem receberá o transplante. Aqueles interessados devem manifestar seu interesse por meio do e-mail [email protected].
Após o contato inicial, os candidatos passarão por uma triagem que inclui uma entrevista e a realização de exames clínicos. Segundo Eduardo Vilela, gastroenterologista e coordenador do Centro de Transplante Fecal, a seleção é bem criteriosa. “Esse é um procedimento off label, conduzido dentro de um projeto de pesquisa que foi aprovado pelo comitê de ética e pesquisa da UFMG. A seleção do doador inicia-se com um questionário simples e, posteriormente, uma anamnese estruturada com várias questões para que, em um segundo momento, o voluntário realize exames de rotina”, explicou o médico.
Processamento e Pesquisa Científica
As amostras coletadas são processadas por médicos patologistas, transformando o material em uma solução que é armazenada em ultrafreezers a uma temperatura de -80°C. Essa condição de armazenamento é crucial para a preservação da microbiota a longo prazo.
No momento do tratamento, a solução é infundida no paciente através de uma colonoscopia convencional, o que permite uma recuperação rápida do paciente. Além do aspecto assistencial, esse projeto também integra uma pesquisa que visa mapear a microbiota da população brasileira. Estudos preliminares sugerem que as fezes dos brasileiros possuem cerca de 30% a mais de firmicutes, bactérias que são consideradas benéficas, em comparação com a microbiota de indivíduos norte-americanos.
Essa diferença sugere que o material genético intestinal brasileiro pode oferecer um potencial protetor mais elevado contra doenças inflamatórias, como a retocolite e a doença de Crohn, destacando a importância desse trabalho não apenas no tratamento, mas também na compreensão das características únicas da microbiota local.
