Interdição Afeta Serviços e Causas Indígenas
A interrupção de um trecho da Estrada de Ferro Vitória a Minas (EFVM), em Resplendor, no leste de Minas Gerais, resultou na suspensão do único trem de passageiros de longa distância que opera diariamente no Brasil. Esse trem, que realiza a rota entre Belo Horizonte e Cariacica, transporta anualmente mais de 1 milhão de pessoas, além de afetar um dos principais corredores de transporte de carga do país.
O bloqueio, iniciado na madrugada do último sábado (21), é liderado por indígenas Tupiniquim das aldeias Caieiras Velha, Irajá e Pau-Brasil, localizadas em Aracruz, no Espírito Santo. Estima-se que entre 20 e 25 indígenas estejam participando da interdição, com o apoio da Associação Indígena Tupiniquim e Guarani (AITG), do Conselho Territorial Tupiniquim e Guarani e membros do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). O foco do grupo é exigir avanços nas reparações pelos danos causados pelo rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, ocorrido em 2015.
Bárbara Favalessa Almeida, uma liderança Tupiniquim e representante da AITG, ressalta que a manifestação é fruto da insatisfação com a ausência de reparações justas para as comunidades afetadas. Apesar da existência de estudos técnicos que quantificam os impactos sobre os povos indígenas, ainda há consequências que permanecem sem o devido reconhecimento.
Impactos Econômicos e Operacionais
Embora a ferrovia seja amplamente conhecida pelo serviço de passageiros que interliga Minas Gerais ao Espírito Santo, ela também desempenha um papel crucial na movimentação de cargas, incluindo minério de ferro, pelotas e outros produtos. Documentos revelados pelo Times Brasil, com licença exclusiva da CNBC, indicam que a EFVM é responsável pela logística de transporte de uma variedade de produtos, como aço, carvão, veículos e combustíveis, além de manter o serviço de passageiros. Em 2023, a operação ferroviária transportou aproximadamente 105,3 milhões de toneladas, sendo 85,1 milhões de toneladas de minério e 20,2 milhões de toneladas de carga geral, incluindo soja, milho e calcário.
A linha regular de passageiros oferece, em média, dois trens por dia, com partidas diárias pela manhã em ambas as direções, cobrindo uma extensão de 664 quilômetros e conectando diversas cidades ao longo do trajeto.
Os números são expressivos e ajudam a entender a magnitude do impacto causado pela interdição. Dados da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) apontam que o sistema ferroviário brasileiro movimentou cerca de 542 milhões de toneladas de carga em 2024, com a EFVM representando 12,9% desse total, posicionando-se entre as três concessões ferroviárias de maior importância no Brasil.
No que diz respeito ao transporte de passageiros, a última atualização pública indicou que 740 mil usuários utilizaram o serviço ao longo de 2023. Com base nessa média, a ferrovia movimentou cerca de 2 mil passageiros diariamente, o que expressa claramente o impacto que uma paralisação prolongada pode ter na conexão entre os dois estados.
Acordos e Mobilizações em Andamento
Essa mobilização ocorre em um contexto em que está sendo discutido um novo acordo para a Bacia do Rio Doce. Este acordo reconhece os povos indígenas Tupiniquim e Guarani como afetados pelo rompimento da barragem. Em março, uma comitiva interministerial do governo federal visitou as comunidades indígenas no Espírito Santo para discutir as ações previstas no acordo, detalhar o processo de consulta e esclarecer dúvidas sobre as reparações.
Em um evento similar, no dia 9 de março, mulheres do MST bloquearam outro trecho da EFVM, em Tumiritinga (MG), também em busca de justiça e reparações pelos danos decorrentes do rompimento da barragem em Mariana. Embora essa interdição tenha durado algumas horas, a atual mobilização se mantém ativa, com o fluxo de trens ainda interrompido, aumentando os impactos sobre o transporte de passageiros e o escoamento de cargas.
O bloqueio na EFVM deixa em evidência não apenas os desafios enfrentados por comunidades indígenas, mas também as repercussões econômicas de ações que visam a reparação justa por danos históricos, revelando a complexidade da relação entre desenvolvimento econômico e justiça social no Brasil.
