A Influência do Contrato de Belo Horizonte
A Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa) está prestes a lançar uma oferta de ações com o objetivo de sua privatização, mas um aspecto crucial ainda está indefinido: a renovação do contrato com a prefeitura de Belo Horizonte. Como maior cliente da Copasa, os termos deste contrato não apenas impactam a empresa, mas também podem servir de modelo para outros municípios mineiros. Diversos interessados, incluindo a Sabesp, têm destacado a relevância deste acordo para a avaliação da companhia.
O cronograma inicial estabelecido pelo governo de Romeu Zema previa que a privatização ocorresse até o final do primeiro trimestre, antes do início do período pré-eleitoral. Em meio a essa corrida contra o tempo, a administração da Copasa tem realizado diversas reuniões com representantes da prefeitura de BH e outros municípios, buscando acelerar o processo.
Os novos contratos que serão firmados terão que incluir metas de universalização que o governo estadual deseja como condição para a venda da estatal, assim como ocorreu em São Paulo com a Sabesp.
Progresso nas Negociações
Marília Carvalho de Melo, presidente da Copasa, comentou em uma teleconferência sobre os resultados do quarto trimestre de 2025 que a renovação do contrato com Belo Horizonte está na “fase final de trâmites”. Contudo, até o momento, não houve concretizações. “Estamos dialogando com os municípios. Criamos uma frente estratégica com os 80 mais relevantes”, declarou ela. A estatal, que atende 636 cidades em Minas Gerais, também busca incluir contratos de esgoto em localidades onde atualmente apenas fornece água.
Em uma declaração recente, Carlos Piani, CEO da Sabesp, ressaltou que a companhia está de olho na Copasa, mas enfatizou que a definição do contrato de Belo Horizonte será “crítica” para avaliar a viabilidade do negócio. Ele destacou que o desenho da licitação pode impactar o interesse da empresa, dependendo de suas diretrizes.
O processo tem avançado lentamente, especialmente nas negociações da concessão da capital mineira, que representa aproximadamente 40% da receita da Copasa.
Comparativo com São Paulo
O CFO da Sabesp, Daniel Szlak, traçou um paralelo com o modelo implementado em São Paulo após a privatização, onde 371 dos 375 municípios se uniram em um consórcio com regras uniformes. Segundo ele, essa abordagem não foi seguida pela Copasa em Minas Gerais. As informações disponíveis indicam que o contrato com Belo Horizonte deverá servir de referência para futuras renovações em outras cidades. “Quanto mais claras forem as regras, mais fácil será atribuir valor ao negócio e tomar decisões mais assertivas”, destacou em uma entrevista à Broadcast.
A importância dessa definição é corroborada por especialistas do setor. Rafael Dias, analista da BB Investimentos, apontou que a negociação da prorrogação do contrato com Belo Horizonte é a última pendência relevante para desbloquear o processo de privatização.
Victor Hugo Scandalo Rocha, advogado da Rocha & Rocha Advogados, também enfatizou que o contrato de concessão de Belo Horizonte é fundamental na avaliação da empresa. “Qualquer incerteza sobre o modelo regulatório ou os termos de renovação impacta diretamente as projeções de fluxo de caixa futuro. Sem uma análise precisa e um processo licitatório bem estruturado, o risco percebido aumenta, desestimulando a entrada de investidores estratégicos, como a Sabesp”, afirmou.
Expectativa de Movimentação de Mercado
O processo de privatização da Copasa promete ser um marco, gerando um grande volume de movimentação na Bolsa brasileira, especialmente no setor de saneamento. Estima-se que a operação possa movimentar entre R$ 8 bilhões e R$ 10 bilhões, de acordo com fontes do mercado.
O modelo que está sendo proposto espelha a estrutura de follow-on (oferta subsequente de ações) que a Sabesp adotou em 2024 e prevê a participação de um investidor estratégico, podendo este adquirir até 30% da companhia mineira. Além da Sabesp, a lista de potenciais interessados abrange empresas como Aegea, Equatorial, Veolia, além de fundos de infraestrutura como o Perfin e o canadense CPP, que já investe na Copasa.
Consultada sobre o assunto, a Copasa declarou que, no momento, se encontra em período de silêncio, o que a impede de se manifestar ou conceder entrevistas que possam influenciar a avaliação de investidores ou afetar a paridade de informações no mercado.
