Sob a Lupa da Polícia Federal
A LCM Construção e Comércio, conhecida como a “campeã do asfalto”, tornou-se o centro de um complexo caso de investigações que envolvem acusações de formação de cartel e superfaturamento em projetos rodoviários. No governo de Luiz Inácio Lula da Silva, a empresa conquistou um total de R$ 8,3 bilhões em contratos, superando em 25% os acordos estabelecidos durante a gestão de Jair Bolsonaro. Essa quantia é quase o dobro do montante obtido pela segunda colocada entre as empresas do setor de pavimentação na atual administração.
Antes de alcançar essa posição de destaque, a LCM tinha uma trajetória modesta no setor. Criada em 2014, a empresa firmou seu primeiro contrato com o governo federal no mesmo ano. O verdadeiro salto em seus negócios ocorreu durante o governo Bolsonaro, quando a construtora registrou R$ 6,6 bilhões em contratos nos três primeiros anos, considerando a correção pela inflação.
Contratos e Liderança no Setor
A sede da LCM em Belo Horizonte se tornou o ponto de partida para uma ascensão meteórica, com a empresa conquistando 128 contratos com o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) em 22 estados sob o governo atual. Em comparação, a Construtora Luiz Costa Ltda. ficou em segundo lugar, recebendo R$ 4,8 bilhões através de 19 contratos, enquanto a V. F. Gomes Construtora Ltda. registrou R$ 2,4 bilhões em 45 acordos. A Construtora Caiapó Ltda. também permaneceu no ranking, com 16 contratos totalizando R$ 1,54 bilhão.
Relações e Controvérsias Políticas
A ascensão da LCM coincide com o declínio das grandes empreiteiras brasileiras, muitas das quais enfrentaram complicações após a Operação Lava-Jato. O fundador da LCM, Luiz Otávio Fontes Junqueira, afirmou em uma entrevista ao Valor em 2015 que a empresa se beneficiaria da lacuna deixada por essas grandes companhias. O empresário é reputado por manter boas relações com diferentes governos, sendo que sua empresa também possui contratos que somam R$ 75,6 milhões no governo de Romeu Zema, de Minas Gerais.
No entanto, sua trajetória não é isenta de controvérsias. Em julho do ano passado, ele foi alvo de uma operação da Polícia Federal sob suspeita de fraudar licitações do Dnit no Amapá, em conluio com Breno Chaves Pinto, suplente do senador Davi Alcolumbre. As denúncias se referem a processos de execução de obras na BR-156.
Defesa da LCM e Reações das Autoridades
A LCM defende o volume de contratações com base na “capacidade técnica destacada e no comprometimento de seus colaboradores”. A empresa nega qualquer irregularidade nas licitações e afirma que tem trabalhado em total transparência com os órgãos competentes, alegando que sua atuação é pautada por princípios éticos e legais.
Por sua vez, Davi Alcolumbre, através de sua assessoria, negou qualquer envolvimento com as empresas citadas nas investigações. O Dnit afirmou ter colaborado com as apurações, e Breno Chaves Pinto não se manifestou sobre o assunto.
Indícios de Cartel
A investigação sobre as obras no Amapá não é a única que envolve a LCM. Há indícios de cartel em pelo menos cinco estados, incluindo Rondônia, onde a empresa firmou contratos de R$ 848,8 milhões. A Polícia Federal apurou que a LCM e outros consórcios de empresas estavam envolvidos em um esquema que compromete a integridade das licitações, além de indicar que pagamentos foram realizados mesmo após alertas sobre irregularidades.
Auditorias e Suspeitas
A Controladoria-Geral da União (CGU) também está de olho na LCM, especialmente por uma obra na BR-367, que conecta Minas Gerais à Bahia. Relatórios de auditoria apontaram que a empresa apresentou dados com informações discrepantes e não comprovou a realização das obras. As investigações alegam que a LCM recebeu pagamentos por serviços que nunca foram realizados.
Adicionalmente, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) está analisando acusações de cartel, envolvendo a LCM e outras construtoras. O relatório aponta “indícios robustos de infração à ordem econômica”, com práticas que sugerem uma tentativa de burlar a competitividade das licitações e favorecer empresas envolvidas no suposto cartel.
