O Valor do Cine Graciano para Belo Horizonte
Quando uma sala de cinema de rua fecha, não é apenas uma tela que desaparece da cidade: vai embora também um ponto de encontro, um espaço para troca e circulação de histórias. É com essa consciência que o Cine Graciano, mantido pela Associação Filme de Rua, lançou uma campanha de financiamento coletivo. O objetivo é garantir a continuidade das atividades que desenvolve no bairro Lagoinha, em Belo Horizonte (MG).
O Cine Graciano está instalado em um prédio histórico da Rua Itapecerica, construído em 1925 e tombado pelo patrimônio municipal. Inaugurado em novembro de 2025, o cinema dedica-se à exibição de produções independentes, à formação de público e ao encontro direto entre realizadores e espectadores, resgatando o espírito do cinema de rua em meio à diversidade cultural da capital mineira.
Transformação e Identidade Cultural
João Perdigão, um dos idealizadores do projeto, destaca a simbologia da transformação do espaço. “Quando começamos a mexer aqui, as pessoas perguntavam se estávamos abrindo uma igreja. É curioso porque normalmente os cinemas viram igrejas, mas aqui aconteceu o contrário: uma antiga loja virou cinema”, explica.
A escolha do bairro Lagoinha reforça essa proposta. Um dos mais antigos de Belo Horizonte, o local é conhecido por manifestações culturais ricas e uma vida comunitária intensa, cenário perfeito para fortalecer o acesso ao cinema e promover encontros entre públicos diversos.
Programação Diversificada e Acolhimento
Desde a inauguração, o Cine Graciano realizou mais de 90 sessões gratuitas, exibiu mais de 162 filmes e promoveu 41 rodas de conversa. Sua programação traz obras que raramente chegam aos circuitos comerciais, abordando temas como direitos humanos, cultura popular, meio ambiente, arte urbana, movimentos sociais e experiências de mulheres, pessoas negras, indígenas, periféricas, LGBTQIAPN+ e pessoas em situação de rua.
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Ao contrário dos cinemas tradicionais, o Cine Graciano incentiva o público a permanecer após as sessões para dialogar e trocar impressões. “Aqui o cinema é um lugar de troca. As pessoas assistem ao filme, ficam para conversar, encontram os realizadores e debatem os assuntos que o filme provoca”, destaca Perdigão.
Recepção Aberta e Inclusiva
O acesso é simples e descomplicado: não há bilheteria nem necessidade de retirar ingressos. Quem chega encontra a porta aberta. “A pessoa pergunta: ‘O que é isso aqui?’. A gente responde: ‘É um cinema’. ‘E o que eu preciso fazer?’. ‘É só entrar’.” Esse acolhimento faz parte da identidade do espaço, especialmente por estar inserido em um bairro que vive a cidade de formas diversas.
Um exemplo marcante dessa relação aconteceu durante a exibição do documentário “Entre a Lei e a Rua”, do estudante de jornalismo Guilherme. Antes da sessão, ele convidou pessoalmente as pessoas retratadas no filme para assistirem à sua própria história na tela. No dia, até os cachorros que aparecem no documentário estavam presentes, acompanhando seus tutores dentro do cinema – uma cena que reforça a vitalidade e o caráter vivo do Cine Graciano.
Histórico da Associação Filme de Rua
A Associação Filme de Rua, criada em 2010, nasceu de rodas de conversa com jovens que tinham as ruas de Belo Horizonte como espaço de moradia e convivência. Desde então, consolidou uma trajetória focada na produção colaborativa de filmes e na democratização do acesso ao audiovisual. Em 2019, inaugurou sua primeira sala de cinema, que funcionou até 2023. O Cine Graciano é a continuidade desse trabalho.
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Financiamento Coletivo para Manutenção
Nos primeiros meses, o Cine Graciano contou com recursos de uma emenda parlamentar da deputada estadual Bella Gonçalves, que apoiou o projeto até julho de 2026. Com o fim desse financiamento, o espaço depende agora do apoio coletivo para se manter.
A campanha de financiamento coletivo tem como meta garantir pelo menos mais seis meses de atividades, destinando os recursos para aluguel, despesas fixas, manutenção do espaço, programação gratuita e apoio às equipes de curadoria, produção, comunicação e administração.
Para Perdigão, mais do que arrecadar fundos, a campanha é uma forma de compartilhar a responsabilidade pela existência do Cine Graciano. “O financiamento coletivo não é para grandes expansões, mas para manter a remuneração mínima dos trabalhadores, manter a sala em funcionamento e continuar oferecendo um espaço para que os filmes circulem e as pessoas se encontrem.”
Assim, o público é convidado a preservar um espaço que nasceu da construção coletiva, onde o cinema permanece como experiência compartilhada e viva na cidade.
