Documentário resgata tradição culinária de Alagoas em Belo Horizonte
Algumas receitas vão além do sabor e alimentam histórias, memórias e a identidade de um povo. É essa essência que o documentário Galinha Cheia, dirigido pelo fotógrafo alagoano Matheus Alves, conhecido como Monstro, traz para a tela em sua estreia no Matula Festival, em Belo Horizonte, entre os dias 6 e 8 de agosto. O filme resgata o saber ancestral das cozinhas das antigas casas de engenho de Alagoas, tradições mantidas quase exclusivamente pela oralidade e pela memória familiar.
No centro da narrativa está Dona Sebastiana, a Dona Moça, uma cozinheira renomada nas festas das fazendas do povoado Luziápolis, na cidade de Campo Alegre. Seu talento para preparar a Galinha Cheia, prato que exige paciência, técnica e respeito ao tempo da cozinha, atravessou gerações e é o fio condutor da produção.
Um prato que guarda história e técnica
A Galinha Cheia é preparada com um processo minucioso: a ave é desossada com cuidado, preservando pele, carcaça, asas e coxas. A carne retirada é temperada com alho, cominho, alfavaca, hortelã-da-folha-grande, coentro e sal, e depois recolocada dentro da própria galinha. Costurada como uma buchada, segue para a panela de barro, onde é envolvida em banha de porco e frita lentamente sobre fogo de lenha. Não há uso de forno — o segredo está no tempo, na tradição e nas mãos experientes que executam a receita.
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Essa técnica foi preservada na família de Matheus Alves e, agora, ganha vida no documentário, que também registra as conversas, gestos e afetos das filhas de Dona Moça ao preparar novamente o prato. O filme não é apenas uma celebração gastronômica, mas um retrato profundo da cozinha popular brasileira e da gastronomia alagoana.
Do sonho familiar ao reconhecimento no festival
Conhecido pelo apelido Monstro, Matheus é um fotógrafo sensível e conectado às histórias do seu povo. Filho de vendedores ambulantes que atuam no Centro de Maceió, ele encontrou no registro audiovisual uma forma de preservar a memória familiar. O projeto, inicialmente pensado como livro, evoluiu para um documentário produzido com recursos próprios e o apoio de amigos e familiares.
“Sempre gostei de ver minha mãe e minhas tias cozinhando. Este documentário é o começo para que as tradições da minha família não sejam esquecidas. Quando o filme foi selecionado para o Matula Festival, fiquei muito feliz”, conta Matheus. O filme mostra mulheres reunidas ao redor da panela de barro e do fogo de lenha, repetindo gestos que vieram de mães e avós, enquanto compartilham lembranças que enriquecem a história da gastronomia local.
Rede de afeto e preservação cultural
Para transformar o projeto em realidade, Matheus contou com uma rede de apoio formada por familiares e amigos, como Karla Sart, Weldja Miranda, Joe Santos, Irandy Mariano, Lukas Couto, Josias Eduardo, Marquinhos e Manu. Essa colaboração reforça que preservar a cultura é um trabalho coletivo, uma verdadeira receita feita de muitas mãos.
A estreia no Matula Festival vai além da exibição de um filme: representa o reconhecimento da importância das cozinhas das antigas fazendas como espaços de identidade, memória e resistência cultural. Ao eternizar o preparo da Galinha Cheia, Matheus Alves garante que esse patrimônio não se perca com o tempo e reforça que preservar uma receita é preservar a história de um povo.
Assistir ao documentário é entender que a gastronomia nasce não só dos ingredientes, mas das pessoas que mantêm vivas as tradições. Enquanto houver histórias como a de Dona Moça e famílias dispostas a transmiti-las, a cozinha alagoana continuará emocionando o Brasil.
