Oficina de Capacitação em Bioinsumos
Recentemente, o Assentamento do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) localizado em Campo Belo, Minas Gerais, foi palco de uma Oficina de Capacitação em Biorreator Popular, voltada para a produção de bioinsumos para a agroecologia. Este evento reuniu agricultores de diversas regiões do estado, todos interessados em aprender métodos simples e econômicos para criar insumos biológicos nas próprias propriedades.
A atividade foi liderada pela doutoranda Marcela de Souza Pereira, do Programa de Pós-graduação em Ciência do Solo da UFLA, e pelo professor Teotonio Soares de Carvalho, do mesmo departamento. Ambos integram a rede de pesquisadores Biosbrasil e o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) Biodiversidade do Solo, focando em pesquisas relativas à biologia do solo e aos bioinsumos. O objetivo da oficina foi aproximar o conhecimento científico da prática cotidiana dos agricultores, demonstrando que a produção de inoculantes pode ser realizada de maneira segura e acessível, sem a necessidade de laboratórios complexos.
Prática e Inovação na Produção Agrícola
Durante a capacitação, os participantes tiveram a oportunidade de aprender na prática como montar e operar o Biorreator Popular, um equipamento projetado especificamente para uso nas propriedades rurais. Este sistema é capaz de multiplicar microrganismos benéficos ao solo, como as bactérias que fixam nitrogênio, fornecendo assim este nutriente essencial para as plantas. Os microrganismos produzidos podem ser aplicados nas lavouras como inoculantes, promovendo um ciclo de produção mais sustentável.
Além do aprendizado técnico, a oficina também ressaltou a importância dos bioinsumos na agroecologia. Permitir que os próprios agricultores fabricam parte dos insumos necessários para suas lavouras resulta não apenas na redução da dependência de fertilizantes nitrogenados, mas também diminui os custos de produção e contribui para a preservação do solo, da biodiversidade, e para a saúde das famílias rurais.
Troca de Saberes entre Comunidades Rurais
A oficina atraiu agricultores de diferentes regiões, que destacaram a relevância da troca de conhecimentos. Hélio dos Santos, da regional Zona da Mata, enfatizou a intenção de levar o aprendizado para outras comunidades: “Agradeço muito à Universidade por oferecer essa oportunidade para nós”, comentou. Josévaldo da Silva, da regional Jequitinhonha, também expressou seu entusiasmo: “Esse encontro vai fortalecer a agricultura familiar, e aplicaremos o que discutimos aqui em nossa região.”
Representando a regional metropolitana de Belo Horizonte, Weslley José Cardoso elogiou a conexão entre universidade e campo: “Esse trabalho é fundamental para os camponeses e assentados da reforma agrária. Saio daqui com a missão de compartilhar esse conhecimento.” Marlon Hermann, do Sul de Minas, destacou a inovação da iniciativa: “O curso superou minhas expectativas e mostrou que a simplicidade pode ser acessível para quem produz.”
Resultados Positivos e Sustentabilidade
Antes mesmo da oficina, uma experiência positiva já havia sido demonstrada no assentamento. Duas integrantes do MST em Campo Belo, Joana Pacheco e Mayra Parreira, conseguiram produzir um inoculante seguindo um tutorial disponível em um repositório aberto criado pelos pesquisadores. O resultado foi um material com 0% de contaminação e concentração de 1,5 × 10⁹ unidades formadoras de colônia por mililitro (UFC/mL), superando os padrões do Ministério da Agricultura.
Essa iniciativa se está ligada a um projeto maior em desenvolvimento no assentamento, que visa a criação de uma unidade de produção de bioinsumos na Cooperativa de Produção Agroecológica Raízes da Terra (CPA). Este espaço não só produzirá insumos para a cooperativa, mas também para outros assentamentos na região.
O Papel Fundamental da Formação Agrícola
O coordenador do assentamento, Iberê Martí, ressalta o esforço do movimento em promover a agroecologia nos territórios rurais: “Estamos incorporando bioinsumos, com apoio de universidades e instituições de pesquisa.” A futura unidade de produção tem potencial para beneficiar não apenas os assentados, mas também agricultores familiares da região.
Para Mayra Parreira, a colaboração com universidades é essencial para fortalecer a autonomia produtiva: “Essa parceria nos ajuda a gerar autonomia e fortalecer a produção agroecológica.” A doutoranda Marcela acrescentou que iniciativas como essa têm um poder transformador. “Quando o conhecimento científico chega ao campo de forma acessível, ele se torna uma ferramenta de autonomia.”
Desenvolvimento Sustentável e Apoio Institucional
Esta oficina representa um exemplo de como a combinação de ensino, pesquisa e extensão pode ser eficaz na construção de sistemas agrícolas mais sustentáveis. Os organizadores e participantes concordam que iniciativas como essa ampliam o acesso ao conhecimento científico e reforçam o protagonismo dos agricultores na busca por soluções para a produção de alimentos e a preservação do solo. O projeto conta com o apoio do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) Biodiversidade do Solo, com financiamento do CNPq, Fapemig e Capes, entre outros.
