Uma Abordagem Crítica da Ciência
A questão sobre a validade de práticas como a homeopatia ou a psicanálise na esfera científica gera debates acalorados. O que é considerado ciência? E o que dizer sobre pesquisas como a polilaminina e o uso da cloroquina na pandemia? Para discutir essas questões, é necessário explorar as diferentes concepções filosóficas que cercam a definição de ciência, algo que, por si só, já gera divergências significativas.
Paul Feyerabend, um filósofo austríaco, apresenta uma crítica ao método científico tradicional ao argumentar que não há uma única metodologia que possa normatizar o desenvolvimento científico. Segundo ele, muitos avanços na ciência ocorreram não apesar, mas sim devido à transgressão das regras estabelecidas. Essa visão sugere que, no contexto científico, “vale tudo” (anything goes).
Esse conceito implica que a verdadeira validade de uma teoria deve ser avaliada com base em seus resultados históricos, ao invés de uma rígida conformidade a uma lista de regras metodológicas. Por exemplo, o heliocentrismo de Galileu enfrentou sérias barreiras empíricas até que, após longas décadas, passou a ser sustentado pela mecânica de Newton. Da mesma forma, a teoria da evolução proposta por Darwin careceu de um mecanismo hereditário até que as leis de Mendel fossem redescobertas no início do século 20. Esses casos ilustram que teorias robustas podem emergir mesmo de evidências mal fundamentadas.
A Relevância do Pluralismo Científico
Assim como Feyerabend sugere, programas de pesquisa, como o da polilaminina, não se submeteriam a uma única metodologia, mas sim seriam avaliados pelo seu desenvolvimento ao longo do tempo, considerando sua utilidade prática e a integração com a ciência como um todo.
Essa perspectiva pluralista tem o mérito de desafiar a ideia de uma primazia absoluta da ciência, além de lembrar que o conhecimento humano não se limita às descobertas laboratoriais. Saberes práticos e tradicionais, muitas vezes desconsiderados pelo establishment científico, possuem um papel importante na compreensão da realidade. É interessante notar que um dos textos mais perspicazes sobre a polilaminina foi escrito pelo autor Marcelo Rubens Paiva, conhecido por sua obra literária.
No entanto, a postura excessivamente cientificista pode comprometer a democracia ao substituir a deliberação plural por uma abordagem tecnocrática. Isso resulta em um desdém pelas humanidades, que são vistas como saberes de menor importância, e diminui a credibilidade da ciência ao exigir que ela responda a questionamentos que não estão dentro de sua alçada, como a busca pelo sentido da vida ou a existência de Deus.
Limites do Pluralismo e os Perigos do Negacionismo
Paul Feyerabend, ao defender seu ponto de vista, comete o erro de trazer à tona exemplos questionáveis. Na tentativa de criticar o método científico, ele equipara práticas alternativas de saúde, astrologia e até mesmo vodu a teorias científicas estabelecidas. Dessa forma, sua crítica à soberania científica pode levar à reabilitação de práticas que são, na verdade, charlatanescas. Essa confusão entre pluralismo intelectual e permissivismo cognitivo pode alimentar o negacionismo.
O filósofo Massimo Pigliucci também coloca em foco que o problema não é a ciência ser submetida a um escrutínio público, mas sim a confusão entre esse escrutínio e a chamada “democratização da expertise”. Ele nos lembra que decisões críticas, como a realização de uma cirurgia cerebral, não devem ser decididas por votação popular. Esse não é um discurso elitista, mas sim um reconhecimento de que sociedades complexas precisam de uma divisão de trabalho especializada. Embora especialistas sejam falíveis e possam ser criticados, eles ainda representam a nossa melhor chance de tomar decisões informadas. Sem essa orientação científica, corremos o risco de ceder espaço a opiniões não fundamentadas, algo que já observamos em fenômenos como o negacionismo climático e o movimento antivacinas.
Assim como Pigliucci, mantenho que a ciência é a ferramenta mais eficaz que temos para compreender o mundo. No entanto, isso não implica que ela deva estar isenta de questões morais e políticas. Devido ao prestígio que a ciência desfruta na sociedade, é fundamental que sua prática seja responsável, eticamente supervisionada e epistemologicamente humilde. Nesse aspecto, Feyerabend estava certo ao apontar a necessidade de uma reflexão crítica sobre os limites e possibilidades da ciência.
