O Cenário da Inovação em Bebidas em Belo Horizonte
Belo Horizonte se firmou como um polo de inovação e criatividade no setor de bebidas no Brasil. Essa afirmação é especialmente verdadeira quando falamos sobre as latinhas de bebidas prontas para o consumo. A capital mineira não apenas abraçou a tendência global dos Ready to Drink (RTD), uma categoria em ascensão que promete crescer 15,4% ao ano até 2030, segundo a Grand View Research, mas também está liderando o mercado nacional com produtos autorais e inovadores.
Diversos fatores contribuíram para que BH se tornasse um ícone neste segmento. A experiência e a estrutura herdadas de cervejarias artesanais e destilarias permitiram um suporte robusto para a fabricação das bebidas. A presença de um consumidor exigente, mas ao mesmo tempo aberto a novidades e que valoriza o que é produzido localmente, tem sido essencial na aceitação de marcas independentes. Além disso, o Carnaval de rua, que se fortaleceu nas últimas décadas, funciona como uma grande vitrine para as criações do setor.
De acordo com Hé́lio Josengler, criador da sidra premium Manza, “quando a tendência do RTD chegou, as cidades mineiras já estavam preparadas”. Sthella Gomes Lima, fundadora da Xá de Cana, reconhece que houve uma transformação significativa no mercado nos últimos anos, que era antes limitado e dominado por poucos players. “O consumidor passou a buscar a praticidade dos drinks prontos, que preservam o frescor e a qualidade”, afirma.
Transformações no Mercado de Bebidas
A biotecnóloga Mariana Castro, especialista em cachaças e consultora de marcas de RTD, observa que assim como o fenômeno da cerveja artesanal e do gin nacional, agora é a vez das bebidas mistas prontas e carbonatadas dominarem o mercado. Recentemente, a demanda por sua expertise disparou, com Mariana recebendo uma média de 15 orçamentos por mês, um volume bem superior ao que via anos atrás.
Os desafios de produção são significativos. Um projeto novo pode custar cerca de R$ 10 mil e levar até oito meses desde a concepção até o produto final. A maioria dos clientes de Mariana são de Minas Gerais, evidenciando o potencial local.
O setor está tão promissor que até uma competição para avaliar as melhores latinhas do Brasil foi criada: a Brasil RTD Cup. A última edição, realizada em janeiro, viu um aumento de mais de 50% no número de marcas participantes, consolidando ainda mais a importância de Belo Horizonte no cenário de bebidas prontas.
O Sucesso da Xeque Mate
Um exemplo notável da evolução desse mercado é a marca Xeque Mate, que combina mate, rum, guaraná e limão. O produto, idealizado por dois amigos durante suas festas universitárias, se transformou em uma potência de vendas, faturando R$ 35 milhões apenas em janeiro de 2026, superando o total de vendas do ano de 2023. A produção, que em 2025 foi de 9 milhões de litros, deve chegar a 15 milhões este ano, com distribuição em 34 mil pontos de venda e seus três bares em BH.
Apesar de várias propostas para venda, o CEO Alex Freire garante que a marca permanecerá independente. Para diversificar ainda mais o portfólio, a empresa lançou a Mascate Drinks, que já está gerando expectativas de representar 30% do faturamento do grupo em breve.
O Papel do Carnaval no Lançamento de Novas Bebidas
O Carnaval de rua em Belo Horizonte tem sido um palco fundamental para a promoção e lançamento dos RTDs. De acordo com Gilberto Castro, ex-presidente da Belotur, o Carnaval se tornou uma plataforma de lançamento para novas marcas, com pelo menos 14 novas latinhas sendo introduzidas no mercado a cada ano. Ele observa que, ao estourar uma bebida em BH, é comum que haja um efeito dominó em outras grandes festas pelo Brasil.
Marcas como Manza e Xá de Cana estão investindo pesado nessa estratégia. Enquanto a Manza desenvolveu uma versão em lata para a sua sidra visando facilitar o consumo durante a folia, Sthella Gomes Lima, fundadora da Xá de Cana, decidiu vender seu apartamento para financiar a produção em escala para o Carnaval de 2025. Essa ousadia resultou em um crescimento impressionante de 36 vezes no faturamento, passando de R$ 50 mil em 2024 para R$ 1,8 milhão no ano seguinte.
Inovações e Oportunidades
Belo Horizonte se destaca pela capacidade de inovar e criar sabores que agradem a um público cada vez mais exigente. As marcas locais têm explorado a autenticidade e a agilidade para competir com gigantes do setor. Mariana destaca que há uma crescente demanda por bebidas feitas com ingredientes naturais e sem aditivos, trazendo uma nova era de autenticidade para as bebidas brasileiras.
Outras marcas como Lambe Lambe têm se aventurado em criações diferenciadas. A empresa já lançou mais de 70 sabores antes de decidir quais se tornarão latinhas, e as mais populares, como a de tangerina com limão, foram responsáveis por volumes impressionantes de produção.
Enquanto a Lambe Lambe expande seus horizontes, as marcas locais visam conquistar o mercado nacional e internacional. Com lojas no Rio de Janeiro e planos de expansão, o cenário para os drinks prontos de Belo Horizonte se mostra cada vez mais brilhante.
