Desafios e Avanços na Ciência para Mulheres
No dia 11 de fevereiro, comemoramos o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, uma data que tradicionalmente propõe uma reflexão sobre a presença feminina nesse campo. Este dia é uma oportunidade para analisarmos não apenas a quantidade de mulheres que atuam na ciência, mas também a qualidade de suas experiências. Embora os dados sobre o aumento da presença feminina sejam importantes, eles não revelam toda a complexidade do caminho percorrido por essas mulheres. É preciso ir além dos números e investigar como a ciência molda as trajetórias femininas, quais os obstáculos enfrentados e as razões que levam tantas a deixar a carreira científica ao longo do tempo.
A análise das experiências de mulheres e meninas na ciência mostra que a questão não se resume a um problema de volume, mas envolve aspectos fundamentais sobre como a ciência é vivida. O foco deve ser não apenas em quem ingressa ou se retira, mas em como as dinâmicas sociais e institucionais afetam a permanência e a decisão de seguir em frente. Esses processos, que muitas vezes não são explicitamente reconhecidos, acumulam-se ao longo do tempo e influenciam as expectativas, o senso de pertencimento e as possibilidades de desenvolvimento profissional.
A Realidade das Desigualdades
Apesar do aumento da presença feminina nas universidades e pós-graduações, as desigualdades ainda persistem no Brasil. As mulheres representam a maioria nas instituições de ensino superior, mas essa presença não garante condições equitativas de permanência na carreira científica. As diferenças entre as áreas do conhecimento, somadas à significativa perda de mulheres em níveis mais altos da carreira científica, são preocupantes. A trajetória na ciência é longa, acumulativa e extremamente seletiva, marcada por avaliações rigorosas, prazos apertados e expectativas de produtividade contínua, que atuam como filtros para a permanência das pesquisadoras.
O que se observa é o chamado efeito tesoura, onde uma minoria de mulheres chega aos altos escalões da ciência. Esse fenômeno ilustra um sistema que provoca desgaste contínuo, no qual a exclusão ocorre não por um único evento, mas por uma série de pequenas penalizações que tornam a permanência cada vez mais difícil. Além disso, a sub-representação de mulheres negras, indígenas e pessoas com deficiência, especialmente mulheres, evidencia as desigualdades estruturais que permeiam o meio científico.
Os Custos da Permanência
Os números, por si só, não conseguem explicar a saída das mulheres da profissão científica. Estudos longitudinais indicam que, em muitos casos, as trajetórias de mulheres cientistas são comparáveis às de seus colegas homens que permanecem. No entanto, a proporção de mulheres que optam por deixar a carreira é maior, e esse fenômeno está ligado a custos não contabilizados nas métricas tradicionais de avaliação, como os impactos na saúde mental, na vida familiar e no senso de pertencimento institucional.
O modelo vigente de excelência científica é baseado na ideia de uma dedicação ininterrupta e em trajetórias lineares, o que marginaliza aquelas que enfrentam interrupções, interpretando-as como falta de comprometimento. A ênfase na hiper produtividade e nas avaliações quantitativas desconsidera contextos sócio-históricos que contribuem para as desigualdades, transformando problemas estruturais em diferenças pessoais de desempenho.
Impacto da Parentalidade na Carreira Científica
Pesquisas como as realizadas pelo movimento Parent in Science têm revelado a forma como a parentalidade pode ser um ponto de inflexão nas trajetórias das mulheres na ciência. A maternidade expõe fragilidades do sistema, pois a queda de produtividade após o nascimento de filhos entra em conflito com um modelo acadêmico que não prevê pausas reais nem ajusta expectativas para mudanças previstas no ciclo de vida das pesquisadores.
Esse conflito provoca um reposicionamento dentro da hierarquia científica, cujos efeitos se acumulam e impactam negativamente a progressão na carreira. Nos últimos anos, algumas iniciativas institucionais têm buscado corrigir essas distorções, como editais que consideram a licença-maternidade e oferecem extensões de prazos e auxílios financeiros. Entretanto, muitas dessas ações ainda são reativas, atuando como respostas pontuais em um sistema que se mantém essencialmente o mesmo.
Por isso, para além da contagem de mulheres na ciência, é necessário repensar quais trajetórias são realmente valorizadas. Que vidas são consideradas adequadas para a prática científica? Quais custos são normalizados em nome da “excelência”? Analisar a ciência sob a perspectiva das experiências de mulheres e meninas é uma maneira de ampliar o horizonte do conhecimento, tornando-o mais sensível às realidades sociais que almeja compreender.
