Empoderamento Feminino nas Escolas de Sergipe
A terceira reportagem da série ‘Mulheres que fazem a educação acontecer em Sergipe’ aborda como a ciência se torna um vetor de emancipação e protagonismo feminino nas escolas da rede estadual. Nos laboratórios, projetos de pesquisa e feiras científicas, tanto professoras quanto alunas mostram que o incentivo à investigação e à inovação pode abrir novas portas para o futuro das meninas sergipanas.
A presença feminina na docência é notável, com 6.224 professoras e 108 educadoras distribuídas pelas 319 unidades de ensino estaduais. O investimento em qualificação também é significativo; 2.734 mulheres têm formação em pós-graduação, sendo 2.292 especialistas, 389 mestres e 53 doutoras, evidenciando um forte compromisso com a formação contínua.
Nesse contexto, a professora Patrícia Fernanda Andrade se destaca. No laboratório do Centro de Excelência de Educação em Tempo Integral Prof. Hamilton Alves Rocha, ela não apenas ministra aulas de Química, mas também molda trajetórias de vida. Para Patrícia, ser uma mulher em uma disciplina historicamente dominada por homens é fruto de persistência, formação e um propósito definido.
A trajetória de Patrícia começou antes mesmo da universidade. Enquanto trabalhava como operadora de caixa, utilizava os intervalos para estudar com apostilas que mantinha guardadas. “Aquilo era um trampolim para mim. Eu queria pagar minha xerox, meu transporte, fazer meu curso e alcançar meus objetivos”, relembra.
Ingressar na Universidade Federal de Sergipe para estudar Química foi um desafio colossal; completar o curso, um ainda maior. “Você entra com uma turma cheia e, no final, poucos se formam. Eu pensava: será que vou conseguir? Mas sempre mantive firme o meu propósito”, desabafa.
A determinação levou Patrícia a se especializar em Ciências da Natureza e Matemática, e posteriormente ao mestrado e doutorado em Química na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), uma experiência que ampliou seus horizontes acadêmicos.
Após quatro anos dedicados à pesquisa e longe da família, ela decidiu investir no ensino integral para fortalecer a cultura científica no Ensino Médio. Encontrou uma rede em transformação, com editais de fomento e apoio da Fundação de Apoio à Pesquisa e à Inovação Tecnológica do Estado de Sergipe (Fapitec/SE), que possibilitaram melhor estrutura laboratorial. “Hoje, meus alunos conhecem uma vidraria, compreendem o que é uma espátula. Antes, improvisávamos. É crucial que eles se vejam como futuros profissionais”, observa.
Para Patrícia, a Química é a ciência aplicada à vida, abrangendo desde a medicina até a energia. “Ensino meus alunos a observarem a comunidade e a identificarem problemas que podem ser solucionados pela ciência”, destaca. Em 2019, surgiu o projeto ‘Meninas na Ciência’, que começou com apenas três alunas e ganhou destaque nacional e internacional, participando de feiras científicas, inclusive em Dubai, com o apoio do governo estadual.
Enquanto experimentos científicos e publicações avançam, Patrícia enfatiza que a comunicação da ciência é essencial. “Quando vinculamos o nome da nossa escola e de Sergipe ao cenário mundial, mostramos nossa capacidade. Ver minhas alunas na universidade é a confirmação de que minha missão foi cumprida. Estamos devolvendo à sociedade cidadãs críticas e com um propósito de vida”, afirma.
Protagonismo Estudantil: Ciência e Coragem
O protagonismo feminino é evidente também entre as estudantes da rede pública estadual. Dos 141.872 alunos matriculados em 2026, 72.689 são meninas, refletindo um equilíbrio no acesso e na permanência escolar. Esse fenômeno se traduz na participação em eventos científicos: em 2025, das 4.870 participações registradas em olimpíadas e feiras de conhecimento, 2.225 foram de alunas, equacionando a 45,68% do total.
Maria Carolina Damázio Matos Rodrigues, uma dessas jovens pesquisadoras, já soma em seu currículo participações em feiras científicas nacionais e internacionais, medalhas em olimpíadas de matemática e uma experiência em robótica pelo Programa Futuras Cientistas 2026. “Desde pequena, sempre fui apaixonada pela área de exatas. Sempre me destaquei em Matemática e Ciências. No segundo ano do Ensino Médio, surgiu a oportunidade de participar de um projeto de iniciação científica que incentivava meninas nas ciências. Como já gostava, resolvi me candidatar e me apaixonei ainda mais”, relata.
Carolina desenvolve dois projetos orientados pela professora Darcylaine Martins, no Centro de Excelência de Educação Profissional José Figueiredo Barreto: Ecoembalagens produzidas com fibra de coco e Biocerâmica a partir de casca de caranguejo, ambos com forte viés sustentável e alinhados aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). “Pretendemos substituir embalagens poluidoras por alternativas biodegradáveis que beneficiem o meio ambiente”, explica.
A experiência no laboratório foi transformadora para Carolina. “Sempre quis fazer Engenharia, mas nunca vi mulheres sendo incentivadas nessas áreas. Ao entrar no projeto, percebi que era possível fazer parte do universo científico”, ressalta. Em menos de um ano de pesquisa, a aluna já representou sua escola e Sergipe em diversos eventos, conquistando prêmios e reconhecimento. “Quando ganhamos na FEBIC, percebi que meu estudo estava fazendo a diferença”, compartilha.
Além de feiras, Carolina participou de olimpíadas acadêmicas, conquistando medalha de bronze na Olimpíada Brasileira de Matemática Financeira e avançando em competições de Ciências da Natureza. Entre as experiências marcantes, destaca a percepção da desigualdade de gênero nos espaços científicos, onde frequentemente é a única mulher. “Em muitas feiras, a maioria dos projetos é apresentado por meninos. Eu era uma das pouquíssimas meninas. Isso me impactou, mas também mostrou que eu estava fazendo a diferença”, observa.
Recentemente selecionada para o Programa Futuras Cientistas 2026, Carolina participou de uma imersão de um mês em robótica na Universidade Federal de Sergipe (UFS). “Conquistar uma das cinco vagas foi uma grande surpresa. Aproveitei ao máximo a experiência. No começo, foi desafiador, mas os professores foram excepcionais e aprendi bastante”, comenta. A escolha de dedicar as férias aos estudos revela sua maturidade. “Eu nunca imaginei abdicar das férias para estudar, mas percebi que era uma oportunidade única”, acrescenta.
Carolina, que também frequenta o Centro Estadual de Idiomas (CEI), já estudava espanhol quando recebeu a chance de apresentar o projeto no Peru, o que facilitou sua comunicação. “Agora, meu foco é o inglês, essencial para a apresentação do projeto na Itália em 2026. Quero aprender para abrir mais portas e representar melhor minha escola, meu estado e minha comunidade”, finaliza.
Ao se dirigir diretamente às colegas, Carolina resume sua jornada em coragem e ousadia: “Lugar de mulher é onde ela quiser. Deixem o medo de lado e arrisquem no que amam. É um trabalho conjunto: o professor apresenta a oportunidade, mas o aluno precisa ter interesse. Quanto mais os professores incentivam as meninas, maiores os resultados”, conclui.
Da gestão pedagógica à logística escolar, da sala de aula e do laboratório aos eventos internacionais, a educação pública de Sergipe comprova que o protagonismo feminino é fundamental. Mais do que celebrar, a Secretaria de Estado da Educação (Seed) reitera o compromisso de garantir que cada menina da rede pública estadual tenha oportunidades reais para aprender, liderar, pesquisar e construir seu próprio futuro. Afinal, quando mulheres educam, lideram e inovam, toda a sociedade avança.
