Reflexões sobre Dependência Cognitiva e Inovação
À medida que a inteligência artificial (IA) se torna um componente imprescindível em diversas áreas, como categorização e análise de dados, surgem preocupações sobre a dependência cognitiva e o que alguns chamam de “emburrecimento”. Essa ideia foi abordada pelo renomado físico e pensador Marcelo Gleiser, que adverte sobre os riscos de confiarmos cegamente nas máquinas para formular nossas narrativas. Segundo ele, a inovação deve ser vista dentro de um contexto mais amplo, que ele denomina de “quarteto existencial”, composto por ciência, filosofia, espiritualidade e artes. Gleiser alerta: “Se não sustentarmos esses quatro pilares, corremos o risco de ver nossa estrutura de conhecimento se tornar instável”.
Gleiser participará como um dos curadores da São Paulo Innovation Week (SPIW), um festival que ocorrerá em maio na cidade, focando em inovação, tecnologia e negócios. O evento, promovido pelo Estadão em parceria com a Base Eventos, espera atrair cerca de 90 mil visitantes, oferecendo palestras de figuras renomadas e uma programação repleta de debates e performances artísticas.
Em entrevista realizada por videoconferência a partir de sua residência na Itália, Gleiser abordou temas cruciais sobre o conhecimento e a inovação. Ele menciona em seu livro “A Ilha do Conhecimento” a ideia de que, à medida que ampliamos nosso saber, também aumentam as perguntas que nos inquietam. “Esse é um paradoxo do conhecimento. Cada nova descoberta traz à tona questões que antes não podíamos imaginar”, explica. Um exemplo disso é a invenção do telescópio por Galileu Galilei, que revolucionou a astronomia ao permitir que observadores vissem cráteres e montanhas na Lua, desafiando a percepção que se tinha da realidade até aquele momento.
A Relação da IA com o Conhecimento
Gleiser salienta que a IA não funciona como um telescópio que expande nossa visão, mas sim como uma ferramenta que processa dados. “A inteligência artificial não cria conhecimento novo; ela utiliza as informações que já temos. Por exemplo, ela pode analisar grandes volumes de dados para identificar padrões, mas não tem a capacidade de pensar ou sentir como um ser humano”, diz. Ele enfatiza que a IA deve ser vista como uma extensão do pensamento humano, e não como substituta deste.
O físico preocupa-se com a forma como a tecnologia está sendo utilizada. “O perigo não reside na IA em si, mas na maneira como nós, humanos, decidimos usá-la. Essa ferramenta pode ser aplicada para o bem ou para o mal. Se utilizada para fins de controle, pode gerar consequências desastrosas”, alerta. Gleiser exemplifica que, enquanto a tecnologia pode auxiliar na busca por curas, como a do câncer de pâncreas, também pode ser utilizada para criar caos, como o controle de semáforos em uma grande cidade, levando a um descontrole urbano.
O Impacto da IA no Aprendizado e na Educação
Quando se trata de educação, Gleiser é ainda mais categórico. Ele observa que o uso excessivo da IA pode afetar negativamente a capacidade dos alunos de desenvolverem pensamento crítico. “Encorajo meus alunos a escreverem à mão, pois percebo que aqueles que utilizam chatbots têm um desempenho inferior. Aprender é uma atividade ativa, enquanto depender de máquinas para realizar tarefas resulta em aprendizado passivo”, analisa. Ele destaca que, sem a prática do pensamento ativo, corremos o risco de não apenas perder a habilidade de contar histórias, mas também a de pensar criticamente sobre questões que nos cercam.
Conforme a IA se infiltra em áreas como educação e interações sociais, Gleiser observa que há uma transição clara nos empregos. Ele relata ter ouvido de um colega investidor que demitiu várias pessoas, substituindo-as por máquinas, enfatizando a eficiência econômica. “Isso levanta questionamentos sobre o futuro do trabalho e como as pessoas se adaptarão a essa nova realidade. A desumanização do trabalho é um perigo, pois a inteligência humana é, acima de tudo, relacional”, critica.
Inovação e a Interconexão das Áreas
Gleiser também reflete sobre como unir ciência, filosofia, espiritualidade e artes pode ser fundamental para inovação. Ele argumenta que a espiritualidade, se ligada à sustentabilidade da Terra, pode inspirar inovações que tenham valor moral. Para ele, essas quatro áreas formam o que ele chama de “quarteto existencial humano”. “Se não tivermos um equilíbrio entre ciência, filosofia, espiritualidade e artes, a base para a nossa existência pode ser comprometida”, alerta.
Por fim, Gleiser sugere que uma reforma curricular que promova uma visão holística do conhecimento pode ajudar a formar profissionais mais equilibrados. Nos Estados Unidos, por exemplo, os estudantes têm a oportunidade de explorar diversas áreas antes de escolher sua especialização, o que contribui para uma perspectiva ampla e inovadora. Ele defende também a necessidade de ampliar o acesso a laboratórios e recursos educacionais, não apenas através de iniciativas governamentais, mas também incentivando a filantropia voltada para a educação. “Toda criança é um cientista em potencial, e precisamos garantir que todas tenham as ferramentas necessárias para explorar o mundo”, conclui.
