Protesto ‘Acorda Brasil’ Mobiliza Diversas Capitais
A extrema-direita retoma hoje as ruas do Brasil com a segunda edição da manifestação intitulada “Acorda Brasil”. O ato principal está agendado para às 14h na icônica Avenida Paulista, em São Paulo, mas outras cidades como Brasília, Aracajú, Belo Horizonte, Blumenau, Campo Grande, Rio de Janeiro, Curitiba, Cuiabá, Florianópolis, Fortaleza e Goiânia também estão organizando eventos semelhantes. Até mesmo grandes centros como Vila Velha (ES), Uberlândia (MG), Chapecó (SC) e Feira de Santana (BA) se uniram ao movimento. A pauta central dos manifestantes permanece a mesma do ato realizado em Brasília no dia 25 de janeiro, que, mesmo sob uma chuva torrencial, atraiu cerca de 18 mil pessoas e resultou em ferimentos por um raio, com 47 feridos, sendo 11 em estado grave. O protesto anterior também viu diversos participantes serem atendidos por hipotermia, em decorrência do clima úmido e frio da ocasião.
Dessa vez, a mobilização tem um caráter distinto do evento anterior. A manifestação de janeiro foi o culminar de uma caminhada que o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) fez desde Paracatu (MG) até a Praça do Cruzeiro. O ato de hoje, por sua vez, começou a ser organizado principalmente por intermédio das redes sociais. Entretanto, a mensagem continua clara: os manifestantes pedem o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e a saída do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Outros assuntos relevantes para os apoiadores de Jair Bolsonaro incluem a derrubada do veto ao Projeto de Lei (PL) da Dosimetria, o qual pode reduzir a pena do ex-presidente, e questões envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, filho do presidente, que teve seus sigilos quebrados pela CPMI do INSS em meio a investigações.
Expectativas e Polêmicas em Torno da Mobilização
Assim como no ato anterior, há expectativas de que figuras importantes da extrema-direita se unam à manifestação de Nikolas para angariar apoio político e eleitoral. Em São Paulo, a presença do governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), é amplamente esperada, especialmente após críticas do governo federal pela falta de projetos que pudessem mitigar os efeitos das chuvas em Juiz de Fora e Ubá. O governo federal destinou R$ 3,2 bilhões via Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) para a região, que enfrentou tragédias que resultaram em 70 mortes devido às tempestades.
Entretanto, a manifestação de Nikolas não significa que a extrema-direita está coesa em torno de um único projeto político. Recentemente, Eduardo Bolsonaro, filho de Jair Bolsonaro, fez críticas ao deputado mineiro e à ex-primeira-dama, Michelle Bolsonaro, por não apoiarem de maneira contundente a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro (filho 01). Nikolas respondeu que “Eduardo não está bem”, evidenciando tensões internas no clã Bolsonaro. Nos bastidores do PL, muitos veem esses desentendimentos com preocupação, pois a percepção é de que a família Bolsonaro não tolera o surgimento de novos líderes sem seu consentimento e que, na realidade, está apertando o cerco ao avanço das lideranças alternativas.
Reações e Análises do Cenário Político Atual
Apesar das tensões, Nikolas se posiciona como uma figura proeminente do bolsonarismo. Ele já foi visto visitando Jair Bolsonaro na prisão e, em janeiro, contou com o apoio do vereador Carlos Bolsonaro, que também se prepara para concorrer ao Senado em outubro, junto da deputada Caroline de Toni (PL). Embora as manifestações tenham visto uma queda significativa de participantes, especialistas argumentam que esses atos ainda desempenham um papel crucial em alimentar discursos radicais contra as instituições, além de manter a militância da extrema-direita ativa e gerar conteúdos que podem viralizar nas redes sociais.
O deputado Marcel van Hattem (RS), líder do Novo na Câmara, ressaltou que este protesto também visa chamar a atenção para questões de abuso e corrupção no Brasil. “Estarei nas ruas, ao lado do povo que defende a liberdade, a Constituição e o Estado de Direito”, afirmou, frisando a necessidade de abrir CPIs no Congresso, incluindo a do Abuso de Autoridade, de sua autoria. Para ele, o Brasil precisa enviar um recado claro àqueles que se sentem acima do poder.
A presidente da Associação dos Familiares e Vítimas do 8 de Janeiro (Afav), Gabriela Ritter, destacou que, desde a tentativa de golpe, muitos manifestantes passaram a temer participar de eventos semelhantes. “Estamos sempre presentes, pois defendemos os familiares. Não vejo um esvaziamento; vejo, sim, algo que pode estar crescendo”, disse, apontando para a crescente insatisfação com o status quo.
O Impacto das Mobilizações e a Disputa Interna na Direita
O cientista político Rudá Ricci observou que a estratégia de mobilização adotada por Nikolas evoca práticas dos movimentos sociais do PT dos anos 1980, durante a redemocratização do Brasil. Ele acredita que Nikolas é um herdeiro da tática de radicalização da base e de pressão sobre as instituições, sem se preocupar em ampliar o discurso. “Ele fala diretamente ao espólio político de Jair Bolsonaro, o que o torna uma figura singular na direita atual”, argumentou.
Ricci também mencionou que, embora a mobilização não tenha mostrado resultados imediatos em adesão popular, a figura de Nikolas parece estar sendo projetada como uma liderança política relevante, sendo cogitada para as eleições de 2030. O uso intensivo das redes sociais tem sido um elemento central em sua estratégia, focando em manter a base bolsonarista engajada e produzindo conteúdo que viraliza.
O cientista político Leonardo Paz Neves, da FGV, alertou que o desgaste acumulado do bolsonarismo está refletido na diminuição das manifestações. Ele observa que a prisão do ex-presidente teve um impacto direto na capacidade de mobilização da base. “É notável o enfraquecimento, que se reflete no número de participantes”, afirmou, destacando que Nikolas enfrenta dificuldade em criar novas narrativas que possam unir grandes públicos.
A fragmentação da direita e a perda de centralidade do público evangélico também têm dificultado a unificação em torno de um só candidato. “Há uma corrida aberta para definir quem será o sucessor do bolsonarismo, mas a dispersão das lideranças torna essa tarefa complexa”, concluiu Neves.
