Desafios e Sonhos: A Luta dos Warao em Belo Horizonte
A jornada de um grupo de indígenas da etnia warao, que deixou a Venezuela há cerca de cinco anos, ainda não chegou a um destino definido. Após atravessar diversas cidades brasileiras, eles chegaram a Minas Gerais no dia 15 de novembro, desembarcando em Montes Claros, na Região Norte do estado. No último sábado, 31 de janeiro, todos se estabeleceram em Belo Horizonte, na esperança de um recomeço.
Composto por 41 indivíduos de oito famílias, o grupo está atualmente hospedado em um abrigo no Bairro Bonfim, localizado na Região Noroeste da capital. No entanto, a situação não é ideal. Amariomata, líder dos indígenas, conversou com a reportagem, ressaltando que o desejo é permanecer em Belo Horizonte, onde já existem outros membros da etnia. Contudo, incertezas permeiam sua nova vida.
A Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) informou que, desse total, 26 são crianças. Amariomata lamenta que as crianças ainda não estejam frequentando a escola. Entre os adultos, que somam 11, nenhum está empregado, sendo que o líder indígena expressou um desejo claro: conseguir um emprego em um supermercado. ‘Estou há dois anos sem trabalhar. Onde vou conseguir trabalho? Não quero pedir na rua’, questionou.
Além da luta por emprego, Amariomata criticou as condições do abrigo, que dividem com brasileiros, e disse que o ambiente não se adequa ao seu modo de vida. ‘Na Venezuela, nós dormimos em redes, estamos em contato com a terra e compartilhamos a vida em comunidade’, explicou. Para ele, um lar verdadeiro é fundamental, onde possam cuidar das crianças e retornar a uma rotina familiar. ‘Aqui é perigoso, tem brasileiros fumando. Precisamos de um lugar só nosso’, afirmou.
Apesar das dificuldades enfrentadas, esse grupo de migrantes demonstra uma determinação inabalável em não retornar à Venezuela, onde a situação é ainda mais desoladora. ‘Lá, não temos ajuda. Não há comida. Aqui, temos arroz, macarrão e frango. No Brasil, as coisas são diferentes’, contou Amariomata, que também mencionou que sua etnia tem sido alvo de agressões e violências.
Quando questionado sobre a situação atual na Venezuela e o governo de Nicolás Maduro, Amariomata respondeu que a distância e o tempo dificultam uma visão clara. Entretanto, lembrou que a situação era insustentável. ‘O presidente não ajuda em nada. Passamos fome, especialmente as crianças’, enfatizou. ‘Não conseguia dinheiro para comprar roupas e medicamentos’, completou.
Recomeço em Belo Horizonte
Os warao não consideram voltar a Montes Claros, onde foram inicialmente abrigados em um ginásio esportivo. A prefeitura ofereceu uma opção de moradia definitiva na zona rural, mas, segundo Amariomata, o local era pequeno e distante, dificultando o acesso a serviços essenciais e oportunidades de trabalho. ‘Quero ficar aqui em Belo Horizonte e trabalhar. Minha família também deseja isso’, concluiu.
No cenário atual, além dos indígenas warao, há outros 72 migrantes de 13 famílias venezuelanas em uma unidade da PBH na Vila Pinho. Amariomata mencionou que tem parentes entre esse grupo.
Dados do último Censo Demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelaram que os venezuelanos constituem o maior contingente estrangeiro no Brasil, com 271,5 mil indivíduos registrados em 2022.
Conforme a PBH, o trabalho desenvolvido visa garantir proteção integral aos migrantes, oferecendo alimentação e assegurando a privacidade e respeito às tradições culturais. O plano inclui a inclusão no Cadastro Único e a regularização de documentos, além de articulação com as redes de saúde, educação e trabalho. A permanência no abrigo pode durar até 18 meses, um prazo flexível que se adapta às necessidades de cada família, visando a reintegração gradual à sociedade.
A Cultura Warao e suas Tradições
A etnia warao, originária do leste da Venezuela, nas margens do Rio Orinoco, vive uma cultura intimamente ligada à água e à pesca. Amariomata explicou que o transporte na região é predominantemente fluvial e que sua comunidade se sustenta da coleta e do cultivo de vegetais, além do artesanato. ‘Na Venezuela, plantamos banana e macaxeira’, destacou. A maior cidade da região é Tucupita, que é a capital do estado de Delta Amacuro.
