Uma Disputa Judicial sobre Patrimônio Familiar
Os netos de Marcel Bich, fundador da Bic, estão enfrentando uma batalha judicial para reaver uma valiosa pintura do século XV, que acreditam ter sido roubada por um ex-empregado da família. O quadro, atribuído ao renomado artista renascentista italiano Fra Angelico, foi adquirido por Bich em 1972 por £130 mil, o equivalente a aproximadamente R$ 901,3 mil. Originalmente, a pintura era pensada para retratar São Pedro, mas com o tempo passou a ser vista como uma representação de São Sisto, o sétimo papa da Igreja Católica.
O empresário chileno Álvaro Saieh, conhecido colecionador de arte, comprou a obra em 2018 por US$ 5,4 milhões através de uma venda realizada pela Christie’s. No entanto, os herdeiros alegam que o quadro foi furtado do apartamento da família em 2006 pelo motorista de Bich, Roy Morrow, que posteriormente vendeu a peça a um marchand por US$ 3 milhões. Essa transação acabou culminando na venda para Saieh.
Os Detalhes da Ação Judicial
Em um tribunal de Nova York, os netos de Bich reivindicaram que a venda foi realizada sem o consentimento legítimo da família, apontando que Morrow não era o proprietário da pintura quando a vendeu. Luke Nikas, advogado dos herdeiros, argumentou que tanto o espólio de Richard Feigen, o marchand envolvido, quanto Saieh deveriam ter questionado a origem da obra, que estava repleta de “sinais de alerta”. “Estamos buscando a devolução da pintura e dos valores correspondentes aos legítimos proprietários”, afirmou Nikas.
Por outro lado, representantes de Saieh corroboraram a legalidade da sua aquisição, alegando que a compra foi realizada de boa-fé e com a confiança em uma respeitada casa de leilões. Já os advogados do espólio de Feigen alegaram que o prazo legal de três anos para esse tipo de reivindicação já havia expirado.
Contexto Familiar e Tensão Jurídica
A disputa envolvendo a pintura não é novidade para a família Bich, que gerencia a sociedade da Bic. A obra já havia sido foco de conflitos entre Bruno Bich, pai dos herdeiros, e sua esposa, Veronique. Bruno acusou Veronique, em um depoimento judicial, de ter escondido o paradeiro do quadro por muitos anos. Em sua defesa, Veronique declarou que entregou a pintura a Morrow para guardá-la durante uma mudança e que ele se comprometeu a colocá-la em um cofre.
Diante disso, a família se viu dividida em um cenário conturbado, onde até os ex-empregados eram considerados “amigos perigosos”. Veronique, que trabalhou com Morrow por quase 20 anos, descreveu a relação como estritamente profissional, embora tenham adquirido um imóvel juntos no valor de US$ 1,2 milhão.
Implicações no Mercado de Arte
A crescente disputa sobre a propriedade da pintura traz à tona questões sérias sobre a autenticidade e a procedência de obras de arte de alto valor. A situação poderá gerar um aumento na vigilância do mercado, onde pinturas icônicas frequentemente superam os índices de ações, mas a dúvida sobre a legalidade pode desvalorizar uma obra. O advogado especializado em disputas de propriedade de arte, Christopher Marinello, destacou que a batalha da família Bich será complexa, dependendo do que foi feito para sinalizar que a pintura era, de fato, roubada.
Com essa saga não apenas envolvendo questões legais, mas também um histórico familiar conturbado, o desfecho desta disputa promete ser um assunto de grande repercussão no mundo da arte e dos negócios. À medida que a questão avança, todas as partes envolvidas se preparam para apresentar suas defesas em busca da verdade.
