A Nova Era da Moda em Belo Horizonte
A partir de julho deste ano, a União Europeia implementará uma proibição à destruição de roupas, acessórios e calçados não vendidos por grandes marcas. Essa mudança legislativa levanta questionamentos sobre suas implicações para a indústria da moda em Belo Horizonte. Para a engenheira Sâmara Merrighi, que trabalha na área de moda circular na capital mineira, essa decisão é um “recado claro” sobre o futuro do setor. Em uma audiência pública realizada na última segunda-feira (23/2) pela Comissão Especial de Estudo em Gastronomia, Moda e Turismo, foram debatidos os desafios e oportunidades relacionados aos resíduos gerados pela indústria da moda na cidade. O encontro, solicitado por Fernanda Pereira Altoé (Novo) e Bruno Miranda (PDT), reuniu representantes do setor produtivo, entidades de classe e membros da sociedade civil, que destacaram a necessidade de ações integradas para converter desafios ambientais em oportunidades econômicas.
A indústria da moda ocupa a preocupante posição de ser a segunda maior geradora de resíduos no mundo, o que desperta uma crescente preocupação sobre seu impacto ambiental. Dentre os principais desafios abordados na audiência, destaca-se a necessidade de integrar ações e políticas, implementar incentivos fiscais e promover a educação sobre consumo consciente. O colegiado planeja realizar novos encontros, incluindo a participação de cooperativas de recicláveis, a fim de ampliar o debate sobre a questão.
Políticas Integradas e Incentivo Fiscal
Durante a audiência, Giovanna Penido, representante da Frente da Moda Mineira, enfatizou a importância de se antecipar soluções e estabelecer parcerias eficientes com o poder público. Para ela, o manejo dos resíduos deve ser incorporado ao Plano Municipal de Gestão Integrada de Resíduos, além de considerar o projeto de logística reversa (PL 533/2025) que está em tramitação. “Mais que um problema, é uma oportunidade”, afirmou Penido, ressaltando a necessidade de uma abordagem proativa diante da situação.
Fausto Izac, integrante do Arranjo Produtivo Local (APL) do Vestuário Horizonte das Gerais, destacou que sua organização abrange 35 municípios na Região Metropolitana, englobando cerca de 37 mil empresas e associações, sendo 70% do setor comercial. Para Thais França Giordano, da Comissão de Direito da Moda da OAB-MG, a questão do preço elevado dos produtos reciclados é um obstáculo que deve ser enfrentado por meio de incentivos fiscais, especialmente para pequenos produtores que adotam práticas sustentáveis.
Educação e Pesquisa na Indústria da Moda
A formação e capacitação no setor também foram temas centrais nas discussões. Fernando Barros, do Senac Minas, mencionou que a instituição já formou mais de 5 mil alunos em cursos profissionalizantes, defendendo que a reciclagem deve ser parte integrante do aprendizado. Já Ricardo Cotini, diretor de Educação Ambiental da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Minas Gerais, alertou que ter uma legislação adequada não é suficiente sem a devida formatação educacional. Ele enfatizou que o profissional da moda deve ser “criativo, ético e estético” para atender às demandas contemporâneas.
Valéria Said, do Fórum da Moda, propôs investimentos em pesquisa, ressaltando a complexidade da reciclagem têxtil e a necessidade de pensar desde a seleção dos materiais que serão reciclados. Ela sugeriu ampliar o debate sobre as dimensões política, ética e estética da moda criativa, envolvendo universidades e especialistas, e finalizou com uma afirmação otimista: “Acreditamos em uma moda esteticamente admirável, eticamente sustentável, justa, viável e criativa”.
Propostas para um Futuro Sustentável
Jorge Peixoto, diretor do Centro de Desenvolvimento Tecnológico para Vestuário, apresentou várias sugestões, incluindo a criação de editais para a utilização de subprodutos têxteis, incentivo a feiras de brechós e a implementação de pontos de doação no Barro Preto. Além disso, ele defendeu um projeto de lei que assegurasse ao menos 10% da aquisição de materiais recicláveis pelo poder público.
A estrategista em moda circular, Adélia Galantini, destacou que, embora existam iniciativas, muitas estão “desconectadas”. Ela anunciou que uma cooperativa voltada para a recepção de resíduos têxteis está em fase de formação na cidade. “Não é uma tarefa simples, mas precisamos começar. As mudanças já estão em andamento”, afirmou Galantini.
A engenheira Sâmara Merrighi ressaltou a importância de relatórios de transparência e de programas educacionais focados na moda circular, citando a proibição da destruição de roupas novas na Europa como um exemplo a ser seguido. Alessandra Alkmim, da Câmara de Comércio Minas Gerais/Chile, revelou que a entidade está criando um eixo de economia circular e promoverá intercâmbios com o Chile, onde restos de tecido já são transformados em novos produtos, como tijolos.
O vice-presidente da comissão, Helton Junior (PSD), lamentou a ausência de representantes da Prefeitura de Belo Horizonte no encontro, enfatizando que, se os resíduos não forem corretamente tratados, as consequências recaem sobre o poder público. O colegiado decidiu realizar novas audiências públicas para incluir outros stakeholders, como a prefeitura e as cooperativas de catadores, na discussão.
