Capital e Sustentabilidade: Uma Nova Era para o Agro
A Climate Week de Nova York funciona como um termômetro do que realmente importa na agenda climática global. Em meio a centenas de encontros simultâneos, o que realmente se destaca são os temas que se repetem em diferentes salas. Entre debates que vão de rodadas de investimento a discussões sobre combustíveis, três pontos se destacaram claramente.
Primeiro, há uma grande quantidade de dinheiro disponível em busca de projetos. Em segundo lugar, a adaptação climática deixou de ser uma pauta apenas social e assumiu papel central como agenda econômica. Por fim, o Brasil chega a esse debate com uma posição singular: tem respostas para os dois desafios, mitigação e adaptação.
Investimentos Crescentes e Oportunidades no Agro Brasileiro
Durante a semana, no evento “From Capital to Implementation”, ficou evidente que o programa Eco Invest Brasil, do Tesouro Nacional, já mobilizou mais de R$ 140 bilhões desde 2024. Em um dos leilões, a demanda por capital superou em mais de cinco vezes o volume público disponível. Essa fila de investidores interessados muda o tom da conversa: o foco deixa de ser apenas atrair recursos e passa a ser sobre como amadurecer projetos que possam absorver esse investimento.
É nesse cenário que o produtor rural brasileiro tem papel fundamental. A propriedade rural começa a ser vista não apenas como um espaço de cultivo tradicional, mas como um portfólio diversificado de ativos capazes de gerar valor. A sustentabilidade, então, se torna uma ferramenta para destravar esse potencial.
Solo recuperado, pastagens restauradas, resíduos transformados em energia e excedentes ambientais passam a compor um balanço que vai além da produção agrícola convencional. O que eu chamo de “terceira safra” é justamente o valor que a terra já produz e que o produtor ainda não comercializa.
Linhas de Crédito e Incentivos para Projetos Sustentáveis
Já existe uma estrutura financeira para apoiar essa transformação. No Plano Safra 2026/27, as linhas Renovagro Ambiental e Renovagro Recuperação e Conversão de Pastagens oferecem taxas atraentes, de 8,5% ao ano, com prazos de até 12 anos e carência de até oito anos. Essas são as menores taxas do pacote, que inclui custeio empresarial com juros de até 12,5%. O financiamento contempla práticas como recuperação de pastagem, integração lavoura-pecuária-floresta, uso de bioinsumos e geração de energia renovável para consumo próprio.
Além disso, o Plano Safra prevê desconto de até 1 ponto percentual na taxa de custeio para produtores com Cadastro Ambiental Rural (CAR) regularizado e que comprovem práticas sustentáveis certificadas. Na prática, a regularidade ambiental passou a ter impacto direto no custo do crédito.
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O Eco Invest, por sua vez, mobilizou R$ 30,2 bilhões para recuperação de terras degradadas e agropecuária, com meta de restaurar até 1 milhão de hectares. O BNDES, na segunda fase do Pró-Floresta+, trabalha na compra de créditos de carbono de restauração, com meta de 60 mil hectares e demanda mínima equivalente a 1 milhão de toneladas de CO2.
Para o produtor, a mensagem é clara: recuperar pastagens, atualizar o CAR e estruturar projetos com métricas de emissões abriu portas para acesso a financiamentos mais baratos e de longo prazo.
A Adaptação Climática como Pilar Econômico
A adaptação climática, que por muito tempo foi vista como uma pauta social, ganhou status de agenda econômica global. As mudanças no clima estão alterando fluxos de capital, cadeias produtivas e até a distribuição da população mundial. Em 2024, as perdas econômicas globais com eventos climáticos somaram US$ 328 bilhões, afetando 167 milhões de pessoas, com menos da metade desses prejuízos cobertos por seguros.
Investir em resiliência climática tem retorno comprovado. Um estudo do World Resources Institute (WRI) analisou 320 investimentos em 12 países, totalizando US$ 133 bilhões, e apontou um ganho potencial superior a US$ 1,4 trilhão, com retorno médio de 27%. Mais de 50% desses benefícios aparecem mesmo sem desastres climáticos, na forma de maior produtividade, emprego e saúde.
Na COP30, houve avanço para triplicar o financiamento de adaptação e criar indicadores globais para monitorar o progresso. Segundo o embaixador André Corrêa, só uma abordagem econômica e financeira robusta, que vá além da mitigação e valorize a adaptação, evitará que vivamos em um planeta e sociedade radicalmente diferentes nos próximos anos.
O Brasil no Centro das Soluções Globais
O Brasil ocupa posição privilegiada ao poder contribuir simultaneamente para mitigação e adaptação. Em um painel sobre combustíveis, alimentos e matérias-primas, ficou claro que as cadeias integradas brasileiras já são uma realidade operacional, não apenas um conceito futuro.
Na mitigação, os biocombustíveis brasileiros — etanol de cana, biodiesel e etanol de milho — abastecem setores que ainda não podem ser eletrificados, como aviação e transporte pesado. Aliado a isso, práticas da agricultura de baixo carbono reduzem emissões e aumentam produtividade.
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Fonte: reportersorocaba.com.br
Na adaptação, o país desenvolveu um modelo único de agricultura tropical, preparado para solos ácidos, calor intenso e regime irregular de chuvas. Essa expertise torna o Brasil um fornecedor de tecnologias essenciais para enfrentar os desafios climáticos globais, como cultivares resistentes, manejo do solo e irrigação eficiente.
Mitigação e adaptação deixam de ser concorrentes e passam a integrar a mesma pauta exportadora: biocombustíveis renováveis, alimentos de baixa emissão e tecnologia agrícola tropical.
O Que o Produtor e a Representação Setorial Devem Fazer
Para o produtor rural, o convite é para enxergar a propriedade como um portfólio de ativos. Identificar pastagens degradadas, resíduos, excedentes ambientais e consumo energético, quantificando cada item. Avaliar as linhas de crédito disponíveis e começar a medir o impacto ambiental, pois esses dados são chave para acessar crédito e mercado.
Já para quem atua em políticas públicas e representação setorial, a missão é ampliar essa narrativa para o mercado internacional. O capital global já reconhece o Brasil como uma oportunidade, agora é preciso demonstrar com dados e projetos que o agro nacional responde às demandas de reduzir emissões e manter a produção sob as novas condições climáticas.
A boa notícia de Nova York é que a janela está aberta e o dinheiro disponível. A sustentabilidade, nesse contexto, é a chave para destravar valor no agronegócio. Quem agir rápido estará à frente.
Paula Mendonça
