Análises Inovadoras Revelam Desigualdades na Educação
Entre 2005 e 2019, o Brasil assistiu a um aumento significativo na concessão de bolsas para o ensino superior privado. Apesar disso, os resultados do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) ainda mostram que as escolas privadas se destacam em relação às públicas. Em São Carlos, por exemplo, as instituições particulares concentram as melhores médias. A disparidade se estende também à infraestrutura escolar, com o Sul, Sudeste e Centro-Oeste apresentando índices superiores em comparação ao Norte e Nordeste, além de escolas urbanas superarem as rurais.
Esses dados foram trazidos à tona em três projetos realizados por estudantes do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, na disciplina Introdução à Ciência de Dados, ministrada pela professora Roseli Aparecida Francelin Romero. A disciplina capacitou os alunos a utilizar métodos analíticos, transformando grandes volumes de dados públicos em informações concretas.
Conforme a professora Roseli, os projetos se concentraram em dados do Enem, do Programa Universidade para Todos (Prouni) e indicadores de infraestrutura escolar do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep). “Os alunos foram incentivados a escolher temas que pudessem dialogar com os desafios do país e a explorar assuntos ainda não abordados”, explica a docente.
Portas Abertas: Apresentações de Projetos Acadêmicos
Os trabalhos foram apresentados durante o evento Portas Abertas, que ocorreu de 24 a 28 de novembro de 2025, na biblioteca do ICMC. Os alunos usaram cartazes e tiveram o desafio de traduzir conteúdos técnicos para uma plateia composta, em boa parte, por estudantes do ensino médio. Para Matheus Paiva Angarola, um dos participantes, a vivência foi enriquecedora. “Saímos da teoria e percebemos como a organização, interpretação e questionamento dos dados são cruciais. Essa experiência, sem dúvida, moldará minha trajetória profissional”, destaca.
Análise dos Microdados do Enem: Disparidades e Perfil Demográfico
O estudo elaborado por Fernando Valentim Torres e João Gabriel Pieroli da Silva focou nos microdados do Enem, utilizando dados de 2024, além de comparações com 2022 e 2023. “Escolhi esse tema por experiência pessoal, já que ingressei na USP pelo Enem, mas nunca havia explorado profundidade essa base de dados antes”, comenta João Gabriel.
A pesquisa investigou desigualdades regionais e a influência da escolaridade dos pais no desempenho dos alunos, além de mudanças no perfil demográfico ao longo dos anos. Os resultados destacaram disparidades significativas, incluindo variações regionais e diferenças entre escolas públicas e privadas. “Surpreendentemente, notamos que a participação feminina no Enem continua a crescer, ano após ano”, enfatiza Fernando.
Além disso, o grupo observou que todas as dez escolas com melhor desempenho em São Carlos eram particulares, localizadas em bairros de maior poder aquisitivo. Entretanto, as instituições da cidade se sobressaem em relação à média estadual, com a nota de redação superando a média de São Paulo em até 61 pontos.
Prouni: Inclusão e Acesso ao Ensino Superior
Outra análise, realizada por Antônio Carlos de A. M. Neto e Matheus Paiva Angarola, abordou o Prouni, que oferece bolsas de estudo em instituições privadas. O estudo examinou o perfil dos beneficiários, a distribuição das bolsas e as tendências dos cursos. “Esperávamos que a área da saúde concentrasse o maior número de bolsas, mas os dados mostraram que cursos como Administração e Direito lideram em concessões”, afirma Antônio.
Os alunos também avaliaram a representatividade racial entre os bolsistas e destacaram que, embora haja avanços, ainda existem desafios para alcançar a equidade racial no acesso ao ensino superior. “O Prouni sempre teve um foco em inclusão, mas notamos que a presença de certas etnias entre os beneficiários ainda está aquém da proporção que representam na população”, observa Matheus.
Infraestrutura Escolar: Um Retrato das Desigualdades Regionais
João Pedro Viguini Tolentino Taufner Correa e Pietra Gullo Salgado Chaves realizaram um estudo sobre a infraestrutura escolar, analisando microdados do Censo Escolar do Inep. A pesquisa identificou padrões de infraestrutura em escolas, levando em conta fatores como a presença de bibliotecas e acesso à internet. “Analisar uma base de dados tão extensa foi desafiador, especialmente em termos de dados ausentes e inconsistentes”, relata Pietra.
Os resultados mostraram que as regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste têm, em média, melhores condições de infraestrutura em comparação ao Norte e Nordeste. Embora algumas descobertas tenham sido previsíveis, elas revelaram as profundas desigualdades que ainda existem no sistema educacional brasileiro. “Esses resultados são um reflexo da nossa sociedade, mostrando a dura realidade das desigualdades que persistem no país”, conclui Pietra.
