As Lembranças que Formaram um Gênio Literário
Cordisburgo – Da janela de sua casa, o pequeno Joãozito observa o vasto mundo à sua frente. Ao ficar na ponta dos pés e se apoiar no parapeito, ele consegue vislumbrar o horizonte. A partir daí, sua imaginação se expande. Na porta da mercearia do pai, seu Fulô, o cenário ganha vida com o som dos vaqueiros tocando a boiada, os apitos do trem que vai em direção à capital e as movimentações do homem de chapéu, sempre acompanhado pelo cão que vigia a vizinhança.
Na casa onde João Guimarães Rosa passou sua infância, hoje transformada no Museu Casa Guimarães Rosa, o repórter reflete sobre a trajetória do menino que em breve deixará sua cidade natal, localizada a 130 quilômetros de Belo Horizonte. A bagagem que ele levará incluirá as memórias de sua infância que, unidas a suas experiências urbanas e acadêmicas, formarão a base de sua notável carreira como escritor. Em pouco tempo, Joãozito se tornará um ícone da literatura brasileira, conquistando leitores em todo o mundo.
A Conexão Com o Sertão e Suas Histórias
Guimarães Rosa, com seu olhar único sobre o sertão, sabiamente destacou que “o sertão é do tamanho do mundo”, refletindo a profundidade de suas observações. Com o passar do tempo, ele atravessou o Brasil e, guiado pelas conversas que teve com vaqueiros e seu pai na mercearia, revelou ao mundo os segredos e as belezas do sertão mineiro. Suas viagens pelo interior nas décadas de 1940 e 1950 o dotaram de experiências essenciais para suas obras.
Para quem ainda não se deparou com “Grande Sertão: Veredas” ou outras obras do autor, uma visita a Cordisburgo e ao Museu Casa Guimarães Rosa é um convite irresistível. Ali, os visitantes têm a oportunidade de conhecer a história de João Rosa, o primogênito de seis irmãos, filho de Florduardo Pinto Rosa e Francisca Guimarães Rosa. Ronaldo Oliveira, coordenador do museu, destaca que este espaço cultural é umportal que possibilita uma compreensão mais aprofundada da trajetória multifacetada do escritor, que também exerceu a medicina e a diplomacia.
Memórias que Atraem Visitantes
Na casa, que possui nove cômodos e um quintal de 272,7 metros quadrados, ainda permanecem elementos da infância de Joãozito, como o fogão a lenha e o piso de madeira. Uma das paredes exibe um trecho da novela “Buriti”, pertencente ao livro “Corpo de Baile” (1956), que evoca aromas e sensações da cozinha que uma vez abrigou sua família.
Os visitantes são cativados ao adentrarem o antigo quarto dos pais de Guimarães Rosa, onde estão expostos móveis e pertences que pertenceram a ele, bem como uma frase emblemática que retrata sua visão de vida: “Já fui mesmo rosa. Não pude ser mais tempo, ninguém pode”, extraída de sua obra “Urubuquaquá, no Pinhém”.
A Máquina de Escrever e os Registros Inéditos
Um dos destaques do museu é a máquina de escrever de Guimarães Rosa, na qual se encontram textos originais, com correções manuscritas pelo autor. Os visitantes podem explorar um mapa que indica as localidades mencionadas em suas obras, além de contemplar uma vasta coleção com mais de 200 peças e 1.200 documentos, entre eles certidões, correspondências e originais de suas obras, com fotografias que capturam momentos marcantes de sua vida.
Aos interessados em pesquisa, vale ressaltar que os originais de Guimarães Rosa estão sob a guarda do Arquivo do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da Universidade de São Paulo (USP), que também cuida dos livros e periódicos que faziam parte da biblioteca do autor.
Uma Visita Marcante
No museu, uma cópia da carta que Guimarães Rosa escreveu a seu pai, datada de 6 de novembro de 1945, expressa sua intenção de visitar Belo Horizonte e Cordisburgo. As primeiras edições de suas obras, incluindo uma dedicatória a seus pais, também estão em exposição.
Durante a visita à Casa Museu, a guia de turismo Tânia Assunção, de Belo Horizonte, ressaltou a importância do local para educadores e estudantes, afirmando que ele é uma excelente fonte de conhecimento fora da sala de aula. Ao seu lado, o colega de guia, João Pedro Paim, afirmou que sempre há algo novo para aprender nesse ambiente.
O Legado Vivo de Guimarães Rosa
Ronaldo Oliveira, enquanto compartilha histórias do passado, revela que a antiga venda de secos e molhados de seu Fulô foi um berço para a criatividade de Guimarães Rosa. Foi nesse lugar que ele ouviu contos que alimentaram a sua imaginação. O museu, inaugurado em 30 de março de 1974, continua a ser um espaço vibrante, com forte ligação à cultura local, especialmente após a criação do Grupo Miguilim em 1996, que estreitou os laços entre a literatura e a comunidade.
A jornada pelas origens de Guimarães Rosa também leva ao Santuário do Sagrado Coração de Jesus, onde a pia batismal em que ele foi batizado está localizada. A Diocese de Sete Lagoas confirma que a pia ainda é usada em cerimônias religiosas, um lembrete do impacto duradouro de sua herança.
Em Cordisburgo, estabelecimentos comerciais frequentemente homenageiam o escritor, e o Portal Grande Sertão, inaugurado em 2010, oferece um espaço para fotos e reflexões. Neste monumento, o autor é representado ao lado de vaqueiros e um cachorro, um símbolo sempre presente em sua obra. Cada visita a essa cidade é um convite para descobrir as raízes de uma das maiores vozes da literatura brasileira.
