Início de um Novo Ciclo para a Cevada no Sul
O inverno no Sul do Brasil não apenas traz a queda nas temperaturas, mas também marca o início de uma nova fase no setor agrícola. Nesse cenário, a cevada se destaca, ocupando espaços que antes eram subutilizados ou reservados ao trigo. Embora passe despercebida, essa cultura é fundamental, já que liga a produção agrícola a uma das indústrias mais importantes do país.
O Brasil se posiciona como o terceiro maior produtor de cerveja do mundo, e é nas lavouras que tudo começa. Para inúmeros agricultores do Sul, a cevada tem se tornado uma fonte significativa de renda durante a safra de inverno, além de funcionar como uma alternativa de rotação de culturas que maximiza o uso da terra ao longo do ano.
Iniciativa da Ambev para Fomentar a Produção
Com uma demanda crescente por cevada, a Ambev, a maior cervejaria do país, lançou uma nova política comercial para estimular a produção do grão. A partir de agora, 50% do valor da colheita de cevada cervejeira será garantido por um valor fixo, enquanto a outra metade seguirá a cotação do trigo, que é um concorrente direto nas áreas de produção. O diretor de Suprimentos e Sustentabilidade da Ambev, Edivan Panisson, explica: “Essa era uma demanda dos produtores, pois o preço do trigo caiu bastante no último ano. Assim, definimos R$ 75 por saca (enquanto o trigo está, em média, a R$ 58 no Rio Grande do Sul) para assegurar os custos de produção, mantendo a lógica do mercado.”
Estratégia de Negócio e Parcerias
A Ambev se compromete a adquirir 100% da produção de cevada da região, além de fornecer assistência técnica e suporte na escolha das variedades. Caso a cevada não atinja os padrões de qualidade exigidos para a produção de cerveja, a empresa a compra para uso como forragem. O pagamento aos produtores será realizado no final de dezembro, após a colheita do grão, que ocorre entre outubro e novembro, após o plantio, que ocorre entre maio e junho.
Além dos contratos diretos com os agricultores gaúchos, a Ambev mantém uma parceria de longa data com a cooperativa Agrária no Paraná. A entidade, que possui uma planta em Guarapuava, anunciou no ano passado a construção de duas novas maltarias em Campos Gerais. “A produção de cevada no Paraná é superior à do Rio Grande do Sul, sendo extremamente relevante para nós. Por isso, garantimos a compra de todo o malte da cooperativa, que agrega valor aos seus associados”, afirma Panisson.
Perspectivas de Crescimento da Produção
O Paraná deve semear cevada em 111,3 mil hectares em 2026, representando um aumento de 7,3% em relação ao ano anterior, impulsionado pela expansão da indústria de malte. No Rio Grande do Sul, a previsão é de 34,5 mil hectares, com um crescimento de 9,9%.
A Embrapa já testou o cultivo de cevada em regiões do Centro-Oeste, mas a necessidade de irrigação elevou os custos, tornando a produção inviável. Em Goiás, Minas Gerais, São Paulo e no Distrito Federal, estima-se que há 5 milhões de hectares com condições favoráveis para o cultivo da cevada no inverno, especialmente em áreas acima de 800 metros de altitude já utilizadas para diversas culturas anuais.
Desafios Climáticos e Logísticos
Contudo, a pesquisa aponta que o principal obstáculo à expansão da cevada cervejeira na Região Sul é o clima. O excesso de chuvas durante a fase de floração pode comprometer a qualidade dos grãos, fazendo com que não atinjam o padrão necessário para a malteação. Aloisio Vilarinho, pesquisador da Embrapa Trigo, explica que a colheita ocorre na primavera, período em que o clima apresenta desafios significativos para os cereais de inverno. “Ondas de calor e geadas tardias, além de chuvas frequentes, afetam as lavouras justo na fase de pré-colheita”, alerta.
Para minimizar perdas, a pesquisa tem trabalhado em cultivares com maior resistência a doenças e condições climáticas adversas, sem comprometer a qualidade necessária para a cerveja. Vilarinho também aponta que a falta de indústrias em outros estados limita a expansão da cevada. “Os altos custos logísticos para transportar grãos do Centro-Oeste até as maltarias no Sul ou no Sudeste dificultam o crescimento da cevada irrigada”, conclui.
Foco na Qualidade da Cevada
Além de promover a produção, a Ambev também incentiva o uso de sementes que garantem a qualidade da cevada. No ano passado, após 12 anos de pesquisa, a empresa lançou a cultivar ABI Valente, que se mostrou 16% mais produtiva que as variedades atualmente utilizadas, com grãos maiores e mais homogêneos, além de maior resistência a doenças fúngicas. Os produtores parceiros não pagam royalties pelo uso da Valente, que também poderá ser licenciada no futuro para outras indústrias cervejeiras.
