O Preço da Judicialização
A crise atual que assolam o Brasil não surgiu do nada. Na verdade, ela foi, em grande parte, resultado de escolhas feitas quando a luta contra o bolsonarismo foi retirada do campo político tradicional para ser delegada ao Judiciário. A partir do momento em que a competição política deixou de ser debatida publicamente e nas esferas parlamentares, e passou a ser gerida por decisões judiciais, as consequências se tornaram inevitáveis.
No afã de vencer batalhas imediatas, como evitar a reeleição de Jair Bolsonaro e silenciar opositores, o campo lulopetista acabou Pavimentando o caminho para um processo de erosão da democracia. Essa escolha, em vez de fortalecer as instituições, levou a um cenário de asfixia institucional, onde inquéritos abertos sem deliberação, bloqueios em redes sociais e prisões preventivas se tornaram práticas comuns.
Consequências da Desnaturalização da Política
O uso dessas táticas de contenção contribuiu para que a Corte se tornasse cada vez mais politizada. Para alcançar seus objetivos, não hesitou em confundir crime com dissenso, contando com o respaldo da mídia tradicional.
Contudo, a democracia não se fortalece por meio de atalhos institucionais. Com o tempo, ficou claro que delegar ao STF a linha de frente na luta contra o bolsonarismo foi um erro monumental. A justificativa inicial, que visava proteger a democracia de ameaças autoritárias, se desfez diante dos acontecimentos recentes. A lição que a História nos ensina é que o autoritarismo frequentemente se disfarça de boas intenções.
A Fragilidade da Confiança Popular
Um campo político que precisa depender de decisões judiciais para se opor ao adversário passa a transmitir uma mensagem de insegurança quanto à sua capacidade de convencimento. O lulopetismo, que, em sua origem, baseava-se na mobilização social e na luta por justiça, agora se vê atado a despachos e votos de ministros, desviando o foco da democracia para um terreno opaco e pouco transparente.
A percepção de arbitrariedade se fortaleceu, e na política, essa percepção se transforma em realidade. Ao invés de isolar o bolsonarismo, a judicialização acabou por consolidá-lo como uma identidade política coesa. Movimentos que poderiam se fragmentar foram, paradoxalmente, unificados pela narrativa de perseguição.
O Protagonismo do STF e Seus Efeitos Colaterais
A cada decisão controversa do STF, cresce o número de pessoas que veem a Corte não como um árbitro imparcial, mas como um agente político ativo. A política não deve ser terceirizada. A verdadeira vitória deve ocorrer nas urnas, em eleições justas e transparentes, e não na benevolência de juízes.
Isso se tornou evidente já durante o governo Bolsonaro. Após a derrota de Fernando Haddad em 2018, o PT se viu diante da necessidade de reconfigurar sua base em um cenário onde o anti-petismo e o conservadorismo moral ganhavam força. Entre 2019 e 2022, a judicialização se apresentou como a solução escolhida para enfrentar o bolsonarismo. Em vez de reconquistar a confiança do eleitorado, optou-se por atalhos institucionais que, a curto prazo, pareciam eficazes, mas que, a longo prazo, mostraram-se desastrosos.
Desdobramentos e Desafios Futuros
Os eventos de 8 de janeiro de 2023 foram um divisor de águas. O STF, mais uma vez, tornou-se protagonista, com o apoio da mídia, que antes glorificava os mesmos personagens que agora critica. No entanto, essa centralidade do tribunal trouxe consequências previsíveis: a percepção de que o Supremo se tornava parte do jogo político, ignorando lições do passado, onde a perseguição a líderes populares tende a criar um ‘efeito rebote’.
Além disso, a crescente judicialização tem erodido a legitimidade do STF, ao expandir sua atuação em áreas que deveriam ser geridas pelo Legislativo e Executivo. Quando decisões de ministros não eleitos se sobrepõem à vontade dos representantes eleitos, configuram-se situações análogas a uma anomalia política grave.
O Custo das Decisões Judiciais
Esta dinâmica traz custos altos para o lulopetismo, especialmente a associação entre governo e Supremo, que gera a convicção de que a administração está sustentada por um aparato judicial que persegue seus opositores. Além disso, qualquer erro ou decisão polêmica do STF recai sobre aqueles que são vistos como beneficiários dessa relação.
A crise de imagem do STF, acentuada por julgamentos polêmicos, se torna um trunfo poderoso para a oposição. O aumento das intenções de voto em Flávio Bolsonaro é um reflexo direto dessa insatisfação popular. Embora Lula tente se descolar da Corte, a polarização oriunda da judicialização se volta contra aqueles que a fomentaram.
A crise atual é, portanto, uma consequência de decisões passadas. Quando o STF se tornou o principal ator nas disputas eleitorais, a judicialização acirrou os conflitos em vez de solucioná-los. E, assim, a estratégia mostrou-se um fracasso, revitalizando o bolsonarismo e transformando-o em uma força que tende a ganhar terreno em 2026.
A lição é clara: a política não pode ser terceirizada. A verdadeira vitória deve emergir das urnas, em eleições limpas e transparentes, e não da vontade dos juízes.
