Entendendo a Matrescência na Maternidade
Recentemente, recebi uma mensagem de uma amiga que me surpreendeu ao falar sobre um livro que havia se tornado uma referência no debate sobre maternidade. Sua recomendação foi clara: “Fiz pressão para que o melhor livro que li sobre maternidade fosse traduzido para o português e agora ele finalmente saiu. Gostaria muito que você conferisse.” Minha resposta foi imediata: “Matrescência? Já estou quase terminando!” O título em questão é “Matrescência: sobre a metamorfose da gravidez, do parto e da maternidade” (Fósforo Ed.), e a partir da pesquisa aprofundada da jornalista Bruna Borelli, descobri que esta obra é uma das mais impactantes que li sobre o tema, especialmente desde que me tornei mãe.
Mas o que diferencia este livro de tantos outros que já foram publicados sobre maternidade? A autora, a jornalista científica britânica Lucy Jones, compartilha suas experiências pessoais durante a gravidez, o parto e a maternidade, ao mesmo tempo em que realiza uma meticulosa pesquisa sobre a literatura científica existente. Ela se sentiu compelida a investigar as transformações drásticas que ocorreram em seu corpo e mente e, ao longo de sua jornada, conseguiu reunir uma vasta gama de estudos realizados por universidades e especialistas renomados, que haviam publicado seus achados nas principais revistas científicas do mundo.
A Importância da Divulgação Científica na Saúde da Mulher
Ao analisar a desconexão que existe entre a vasta quantidade de informações científicas disponíveis e a compreensão popular sobre maternidade, é impossível não notar a negligência histórica que a medicina voltada para a saúde feminina sofreu, muitas vezes em mãos de homens. A falta de divulgação e de aplicação prática desse conhecimento não é uma surpresa: assim como a menopausa, a saúde das mulheres foi, durante séculos, um tema relegado a segundo plano.
Lucy Jones, em sua obra, defende que a experiência de ter um filho provoca transformações tão intensas no corpo feminino que deve ser levada tão a sério quanto a adolescência. O termo “matrescência”, que designa esse período de transformação, foi inicialmente cunhado pela antropóloga Dana Raphael em 1973. Ela defendia a importância da amamentação e da assistência mútua entre mulheres, especialmente durante e após o parto, uma ideia simples, mas que ainda enfrenta barreiras significativas para sua implementação.
Um Olhar Pessoal Acompanhado de Evidências Científicas
O livro de Lucy Jones é uma fusão entre sua experiência pessoal e as evidências científicas que sustentam suas observações. À medida que lemos, é difícil não se identificar com suas reflexões; quantas vezes pensei comigo mesma: “Então eu não estava louca!” ou “Não é apenas um exagero meu!” O que ela relata ressoa com a vivência de inúmeras mães ao redor do mundo.
Nos tempos atuais, as redes sociais e a pandemia contribuíram para que um diálogo mais franco sobre maternidade emergisse. Mulheres têm compartilhado suas experiências, desde complicações e dores do parto até questões como a depressão pós-parto e as mudanças físicas que ocorrem após a maternidade. O que nos reconecta a uma pergunta fundamental: quem somos nós ao retornarmos ao cotidiano após todas essas vivências intensas?
Um Retrato da Diversidade nas Experiências Maternas
Recentemente, comentei sobre a falta de narrativas que abranjam o lado B da maternidade, que inclui solidão, medos e frustrações, sem deixar de lado o lado A, que é repleto de amor incondicional e conexões profundas. O que torna a leitura de “Matrescência” ainda mais rica é que, embora as experiências de Lucy e as minhas sejam bastante diferentes, os impactos cognitivos e emocionais que vivenciamos foram surpreendentemente semelhantes. Enquanto Lucy lidou com um sistema de saúde pública que, até recentemente, manteve uma abordagem extremamente restritiva e problemática em relação ao parto, eu, no Brasil, tive acesso a cuidados médicos de alta qualidade e uma rede de apoio sólida.
Mesmo com essas diferenças, ao final, vemos que todos enfrentamos os mesmos desafios emocionais e físicos. “Matrescência” pode muito bem ser considerado o livro essencial que todas as mães — e idealmente, também os pais e cuidadores — deveriam ler, pois ele ilumina a complexidade e a beleza do papel materno.
