Solidariedade em Tempos de Crise
Minas Gerais enfrenta uma das temporadas de chuva mais devastadoras de sua história recente. Em fevereiro, Juiz de Fora registrou impressionantes 584 mm de precipitação, o que representa o maior volume já registrado para o mês, conforme dados do Instituto Nacional de Meteorologia. Em apenas três dias, as chuvas ultrapassaram 229 mm, um aumento de 240% em comparação à média histórica. Na cidade de Ubá, 124 mm caíram em apenas seis horas, resultando no transbordamento do Rio Paraibuna e levando ao deslizamento de encostas. Até o fechamento deste artigo, no dia 26 de fevereiro, Minas Gerais contabilizava 54 mortes relacionadas a esse período de chuvas intensas. De acordo com informações do Corpo de Bombeiros e Defesa Civil, 48 fatalidades ocorreram em Juiz de Fora, onde 12 pessoas ainda estavam desaparecidas. Já em Ubá, foram registradas seis mortes, com buscas ativas por mais dois desaparecidos.
O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais evidenciou a gravidade da situação, apontando para risco elevado de deslizamentos e problemas de drenagem urbana. O fenômeno que atingiu a região foi classificado como uma “supercélula”, um sistema convectivo com alta intensidade e rápida formação, que demonstrou a vulnerabilidade da estrutura urbana existente.
Nesse cenário desolador, é importante destacar a solidariedade do povo mineiro. Historicamente, quando o Rio Grande do Sul enfrentou enchentes devastadoras, os mineiros se mobilizaram, enviando doações, voluntários e caminhões para ajudar. Agora, é a vez de Minas Gerais precisar de apoio. Para isso, o Movimento Democrático Brasileiro em Belo Horizonte abriu sua sede, localizada na rua Rodrigues Caldas, 456, para receber doações de água, alimentos não perecíveis, produtos de higiene pessoal e roupas de cama. A coleta é realizada de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h.
Planejamento e Prevenção: Um Chamado à Ação
A solidariedade é um aspecto imediato, mas o planejamento deve ser uma prioridade contínua. Dados recentes revelam que os investimentos do governo de Minas em infraestrutura para combater os efeitos das chuvas despencaram de aproximadamente R$ 135 milhões em 2023 para cerca de R$ 6 milhões em 2025, uma queda de 96%, conforme informações do Portal da Transparência, divulgadas por “O Globo”. Em 2024, os gastos já haviam caído para R$ 41 milhões. Após os recentes desastres, foram anunciados R$ 38 milhões para Juiz de Fora e R$ 8 milhões para Ubá, enfatizando a necessidade de ações emergenciais e preventivas.
Historicamente, Minas Gerais tem respondido às chuvas com soluções como canalização e concretagem, priorizando o escoamento rápido. Porém, essa abordagem frequentemente eleva o risco de novos desastres, uma vez que a impermeabilização do solo e a ocupação de áreas de risco aumentam a vulnerabilidade.
Felizmente, existem alternativas eficazes. Um exemplo inspirador é o Benjakitti Forest Park, em Bangkok, inaugurado em 2022. Este projeto, que ocupa 720 mil metros quadrados de um antigo terreno fabril, foi desenvolvido em parceria entre os escritórios Arsomsilp e Turenscape, fundado pelo renomado arquiteto paisagista Kongjian Yu, criador do conceito de cidades-esponja. Em vez de simplesmente ornamentar, a infraestrutura urbana foi projetada para reter água de forma inteligente.
O parque conta com lagos interligados, relevo moldado e wetlands artificiais, capazes de armazenar até 128 mil metros cúbicos de água durante chuvas intensas. Além disso, o sistema filtra aproximadamente 1.600 m³ de água diariamente, utilizando vegetação aquática para devolver água ao meio ambiente de forma gradual durante períodos secos. Bangkok trocou a abordagem de escoamento rápido por uma estratégia de retenção: absorver, armazenar, infiltrar e liberar.
O Caminho a Seguir
A Zona da Mata em Minas Gerais, com seus morros íngremes e solos vulneráveis à erosão, demanda um planejamento cuidadoso, que deve considerar a bacia hidrográfica em sua totalidade. Medidas como áreas alagáveis controladas, bacias de retenção, parques lineares em fundos de vale e a recuperação de matas ciliares são essenciais. Para isso, é necessário integrar a defesa civil, o planejamento urbano e a política habitacional.
Belo Horizonte já demonstrou que isso é possível ao implementar iniciativas como o Drenurbs e o Parque Nossa Senhora da Piedade, que foi criado em 2008. Essas soluções baseadas na paisagem não apenas reduzem o risco de desastres, mas também valorizam o território. No entanto, a diferença está na escala e na continuidade dessas ações.
Com eventos climáticos extremos tornando-se cada vez mais frequentes, a reconstrução costuma ser mais cara do que a prevenção. Assim, a questão que se coloca é: Minas Gerais continuará a reagir ou passará a planejar? A água sempre encontrará seu caminho. O essencial é que o poder público antecipe e desenhe esse trajeto antes da próxima tempestade.
