A Polêmica dos Candidatos ‘Forasteiros’
A Câmara Municipal de Belo Horizonte (CMBH) inicia 2026 com um tema candente em sua pauta: a cassação do vereador Lucas Ganem (Podemos). Embora o processo esteja impedido pela Justiça, a discussão sobre a possível perda do mandato do parlamentar tende a ser um tópico recorrente durante este ano eleitoral. Em foco, está a legitimidade de candidatos que se lançam a cargos em regiões onde não desenvolveram suas trajetórias políticas.
Ganem faz parte de uma família tradicionalmente ligada à política, que tem se movido por Minas Gerais com a bandeira da defesa dos animais. Com as eleições de outubro se aproximando, é esperado que o eleitor mineiro veja o surgimento de mais candidatos que, como ele, não têm raízes políticas no estado, mas tentam a sorte nas urnas.
Um exemplo notável é Eduardo Cunha, ex-presidente da Câmara dos Deputados, que, após sua trajetória marcada pela presidência do impeachment de Dilma Rousseff (PT), busca reerguer sua carreira política em Minas Gerais. Deslocando-se do Rio de Janeiro, onde se destacou nacionalmente, Cunha já fixou residência em Belo Horizonte e lançou uma rádio voltada para o público evangélico.
Nomes em Ascensão e Mudanças de Rumo
Outro nome em ascensão é Marco Antônio Costa, conhecido como o ‘Superman da Jovem Pan’. Com uma carreira consolidada como comentarista na rádio de São Paulo, Costa também escolheu Lagoa Santa como sua nova residência e planeja concorrer nas eleições de 2026. Inicialmente, sua intenção era buscar uma vaga no Senado pelo PL, mas, diante da concorrência interna, decidiu concorrer a deputado federal pelo partido Novo.
Em entrevista à Itatiaia, Thiago Silame, professor da Universidade Federal de Alfenas e pesquisador do Centro de Estudos Legislativos da UFMG (CEL-DCP), caracterizou esse fenômeno como pragmatismo eleitoral. Para ele, as candidaturas de figuras como Carlos Bolsonaro (PL) ao Senado por Santa Catarina exemplificam essa tendência; Carlos abandonou seu assento na Câmara Municipal do Rio de Janeiro em busca de um novo espaço político.
“Esse tema ganhou destaque recente, especialmente por causa da candidatura do Carlos Bolsonaro em Santa Catarina, o que altera a dinâmica das elites locais. A reação de antigos aliados é significativa, pois muitos se sentem preteridos por um nome que não tem vínculos diretos com a localidade”, afirmou Silame, ressaltando que essa estratégia visa aumentar a representatividade da direita no Senado.
Estratégias e Pautas Universais
A iniciativa de lançar candidatos de peso associados à família Bolsonaro, mesmo que eles não tenham vínculos territoriais, está se intensificando. O objetivo é garantir uma maioria no Senado, mesmo que isso signifique candidatar pessoas em estados onde não desenvolveram carreiras.
Um dos pontos-chave para o êxito dessas candidaturas ‘forasteiras’ é a capacidade de se apoiar em pautas de abrangência universal. Nesse contexto, é essencial dialogar com eleitores que valorizam questões gerais, frequentemente ligadas a moralidades ou à defesa dos direitos dos animais.
O professor Silame observa que essas pautas frequentemente envolvem assuntos morais como aborto e casamento homoafetivo, além da crescente atenção à causa animal, que, embora não exclusiva da direita, tem sido apropriada por eles. “Esses temas servem para mobilizar o eleitorado conservador e sinalizar que os candidatos compartilham das mesmas preocupações, estabelecendo assim um vínculo com esses eleitores”, explica.
Regras Eleitorais e Desafios Jurídicos
A legislação eleitoral brasileira estabelece um prazo mínimo de seis meses entre o registro do domicílio eleitoral e a realização da eleição, conforme o artigo 9º da Lei nº 9.504/1997. Essa norma é rigorosamente aplicada pela Justiça Eleitoral, em especial pelos tribunais regionais e pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
O caso de Lucas Ganem exemplifica os desafios enfrentados. Ele corre o risco de perder seu mandato devido a uma suposta fraude na mudança de domicílio eleitoral; segundo Silame, essa situação é mais complexa em comparação com as candidaturas discutidas anteriormente. “Ganem alegou residir em um endereço onde nunca morou, e a Justiça Eleitoral já identificou indícios de fraude, complicando ainda mais sua situação”, conclui o pesquisador, mostrando que a questão permanece em aberto.
