Origens do metal em Belo Horizonte
Antes de o Sepultura alcançar fama internacional e consolidar Belo Horizonte como referência global do heavy metal, a cena local era formada por jovens que trocavam fitas cassete, personalizavam camisetas manualmente, ensaiavam em garagens e buscavam espaços para realizar shows. Essa trajetória foi resgatada no programa Culturama, da TV Horizonte, apresentado por Bauxita, que reuniu figuras importantes da primeira geração do metal mineiro: Jairo Guedes, ex-guitarrista do Sepultura e atual integrante do The Troops of Doom, Pedro Bozó, ligado à formação clássica do Overdose, e Lúcio Xubaka, produtor cultural e idealizador do XBK.
Jairo Guedes e a influência musical inicial
Jairo Guedes revelou que seu interesse pela música surgiu na infância, influenciado pela mãe, que o apresentou a Elvis Presley. Mais tarde, ao explorar a coleção de discos e revistas das irmãs, descobriu artistas como Kiss e Alice Cooper, atraído pela estética visual antes mesmo do som das bandas. Já em Belo Horizonte, frequentava pontos de encontro da juventude roqueira, onde fitas cassete e publicações como a Rock Brigade divulgavam bandas pouco conhecidas no Brasil, incluindo a nascente cena thrash metal da Baía de São Francisco.
Em 1984, durante uma apresentação da banda Tribo de Solos no espaço Outro Lado da Moeda, Jairo conheceu Max e Igor Cavalera, integrantes do Sepultura. Igor usava um colete pintado à mão com o nome da banda. Apesar da desconfiança inicial, Max o convidou para conhecer o grupo e tocar na casa da família. Jairo trouxe experiência musical e liderança, ajudando a organizar os ensaios e a tornar o Sepultura um projeto mais disciplinado, além de exercer um papel de irmão mais velho para os jovens músicos. Logo depois, a banda fez sua primeira gravação oficial em estúdio.
A trajetória do Overdose e o cenário local
Pedro Bozó relembrou a formação do Overdose, essencial para o metal mineiro. O grupo surgiu a partir do contato com Cláudio David, ex-integrante do BH2O, em encontros informais e ensaios em garagens. Bozó começou a cantar após imitar Gene Simmons, do Kiss, durante uma brincadeira, o que chamou a atenção de Cláudio para formar a banda. Com músicos como Fernando Pazzini, o Overdose fez suas primeiras apresentações em festivais escolares no início dos anos 1980.
Na época, o visual e os gestos do heavy metal eram vistos com estranhamento, e o sinal dos dedos chegou a ser associado ao satanismo por parte do público. O Overdose tocou em diversos espaços, como o Barroliche, onde também se apresentou o Sepultura. As duas bandas consolidaram sua relação com o lançamento do split “Século XX/Bestial Devastation”, em 1985, pela Cogumelo Records, que dividiu o disco entre o heavy metal tradicional do Overdose e o som mais extremo do Sepultura.
Polêmica e maturidade na cena metal
Durante a entrevista, foi lembrado um episódio conhecido: integrantes do Sepultura riscavam o lado do Overdose em algumas cópias promocionais do split para promover só o próprio material. Jairo Guedes atribuiu esse comportamento à imaturidade e ansiedade dos jovens músicos, que ainda aprendiam a lidar com relações profissionais em uma cena pequena. Pedro Bozó encarou a situação com bom humor, destacando que isso não afetou a trajetória das bandas. Hoje, essas cópias se tornaram raridades cobiçadas por colecionadores, simbolizando uma história construída entre amizade, rivalidade e improvisação.
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Xubaka e o Rock in Rio de 1985
Lúcio Xubaka acompanhou de perto o surgimento de bandas como Sepultura e Overdose, conhecendo músicos da cena desde o começo dos anos 1980, quando fãs se identificavam pelo visual com cabelos longos, jaquetas jeans e camisetas pintadas manualmente. Um dos momentos marcantes contados por ele foi sua participação no primeiro Rock in Rio, em 1985.
Impedido de entrar no hotel onde estavam os músicos internacionais, Xubaka usou um disfarce com roupas do pai, camisa social e óculos escuros, fingindo ser hóspede estrangeiro. Assim, conseguiu se aproximar de Ozzy Osbourne, tirar fotos e registrar o cantor com uma pequena câmera. Antes do encontro, Pedro Bozó havia feito tatuagens temporárias em seu corpo, mas Xubaka optou por removê-las para preservar os desenhos.
O surgimento do XBK e a cultura do rock em BH
A história do XBK começou anos depois, quando Xubaka voltou a Belo Horizonte após morar nos Estados Unidos e São Paulo. Inspirado por sua experiência com hambúrgueres na brasa e incentivado pelo baterista Jean Dolabella, ex-Sepultura, ele abriu uma hamburgueria temática no bairro Anchieta, inicialmente sem apresentações ao vivo.
Com o tempo, músicos amigos pediram espaço para shows, e o local foi ampliado para acomodar o público crescente. Hoje, o XBK possui dois palcos e uma programação de música ao vivo de quarta a domingo, tornando-se ponto de encontro importante para músicos, fãs e personagens históricos do rock belo-horizontino.
Artes visuais e tatuagem na cena metal
Pedro Bozó também falou sobre sua relação com as artes plásticas e a tatuagem, influenciado pelo pai pintor. Começou a se tatuar sozinho com agulha e nanquim, em uma época de forte preconceito, e depois trabalhou com outros tatuadores até abrir seu próprio estúdio, atendendo músicos e integrantes da cena local. Para Bozó, a tatuagem perdeu parte do caráter transgressor ao se popularizar, mudando de símbolo de identidade para acessório estético.
Ele lançou um livro com pinturas que exploram folclore, cultura nordestina, religiosidade e imaginário popular, reforçando a conexão entre arte e memória na cultura do metal mineiro.
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Miniaturas e dioramas de Jairo Guedes
Além da música, Jairo Guedes produz miniaturas e dioramas inspirados principalmente na Segunda Guerra Mundial. As peças retratam cenas históricas e narrativas visuais construídas com detalhes precisos, criadas em seu ateliê enquanto ouve música clássica. Para ele, essa atividade silenciosa contrasta com a rotina intensa de shows e turnês, oferecendo um espaço de criação individual e reflexão.
Exposição conjunta e próximos passos
Jairo Guedes e Pedro Bozó anunciaram uma exposição conjunta na Casa Palma, na região da Serra, entre 1º e 20 de outubro. A mostra reunirá os dioramas e miniaturas de Jairo com as pinturas e obras visuais de Bozó, estabelecendo um diálogo entre guerra, folclore, música e memória, refletindo a amizade construída desde os primeiros anos da cena metal em Belo Horizonte.
Jairo também comentou a turnê internacional prevista do The Troops of Doom entre julho e setembro, com shows em festivais europeus na Bulgária e Grécia, seguida de apresentações no Brasil. A banda resgata o death e thrash metal dos anos 1980, período em que Jairo participou de lançamentos importantes do Sepultura.
Legado da cena metal mineira
As histórias de Jairo Guedes, Pedro Bozó e Xubaka evidenciam que a relevância da cena mineira vai além do sucesso do Sepultura. Bandas como Overdose, Holocausto, Chakal e Mutilator criaram um ecossistema próprio, sustentado por lojas de discos, revistas, fitas cassete, festivais escolares, bares, amizades e rivalidades. Antes do reconhecimento mundial, jovens buscavam instrumentos, espaços para ensaiar e público para uma música considerada barulhenta demais.
Décadas depois, esses encontros improvisados influenciam bandas no mundo todo, mantendo Belo Horizonte como um dos berços históricos do metal extremo.