Como Líderes Religiosos Impactam as Candidaturas
Nos preparativos para as eleições de outubro, uma estratégia tem se destacado: a influência dos líderes evangélicos na promoção de candidatos. É comum observar pastores solicitando explicitamente apoio para seus aliados, além da realização de cultos que favorecem a visibilidade de pré-candidatos. Alguns eventos, como cultos com sorteios de prêmios, têm sido utilizados para estreitar laços entre os candidatos e o eleitorado. Contudo, especialistas em direito eleitoral divergem sobre a legalidade dessas ações durante a pré-campanha.
Um exemplo emblemático dessa prática ocorreu no início de março, quando o deputado Eduardo da Fonte (PP-PE), aspirante ao Senado, participou de um culto da Assembleia de Deus em São Paulo. Durante a cerimônia, o líder da igreja em Pernambuco, Eliseu Virgílio, declarou do púlpito que Da Fonte “é nosso futuro senador”, uma fala que foi acompanhada pelo bispo Samuel Ferreira, que reforçou que “vai ficar mais fácil de fazer campanha”. É importante lembrar que a legislação eleitoral proíbe a realização de propaganda eleitoral em templos religiosos. Apesar das tentativas de contato, o deputado não se manifestou sobre o tema.
Pedidos de Apoio e Candidaturas em Destaque
Outra manifestação de apoio ocorreu quando Samuel Ferreira gravou um vídeo em suas redes sociais solicitando votos para o deputado Marco Feliciano (PL-SP), que também é pré-candidato ao Senado. Em sua mensagem, Ferreira enfatizou a necessidade de ter representantes evangélicos no Senado, mencionando a importância de eleger até dois senadores que pensem em nome da igreja.
Ainda no contexto das eleições, o Partido Liberal (PL) está em processo de definição sobre quem indicará para a vaga no Senado em São Paulo. Marco Feliciano é um dos nomes ventilados, ao lado do vice-prefeito de São Paulo, Coronel Mello Araújo, e do deputado Mario Frias.
Eduardo Cunha, ex-presidente da Câmara, também está remontando sua trajetória política na tentativa de retornar à Câmara. O ex-deputado, que pretende se candidatar por Minas Gerais, está associado a rádios e realizou o lançamento de uma delas em um culto, com sorteios de prêmios como um carro zero-quilômetro. Cunha, que está filiado ao Republicanos, se defendeu afirmando que o culto ocorreu em uma casa de espetáculos e não em uma igreja, além de afirmar não ver problema na relação entre as igrejas e os apoios políticos.
A Conexão Entre Política e Religião em Eventos Evangélicos
O deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) se fez presente em um congresso da União da Mocidade das Assembleias de Deus de Goiás, considerado um dos maiores eventos de jovens evangélicos do país. Nikolas, filho de um dos fundadores da Igreja Graça & Paz, reforçou a legitimação da sua fé em sua atuação política, declarando que sua missão é falar de Cristo em todos os lugares que estiver.
De acordo com dados do último Censo, os evangélicos compõem mais de um quarto da população brasileira, alcançando 26,9%, um crescimento significativo em relação ao passado. Em contrapartida, a população católica, que ainda é a maior, viu seu número reduzir para 56,7%.
Em uma manobra para conquistar o eleitorado evangélico, o ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL) filiou Gunnar Nunes Nicácio, filho do presidente da Assembleia de Deus em Alagoas, José Orisvaldo Nunes. Gunnar, que deve concorrer a deputado federal, proporcionará uma plataforma para Lira.
Legislação e Práticas Ilegais nas Igrejas
A utilização de igrejas como plataformas eleitorais não é uma novidade. A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro já havia estabelecido conexões em igrejas durante a eleição de 2022. Damares Alves, ex-ministra, se elegeu senadora pelo Republicanos, mesmo sem estar ligada a candidatos a governador, reafirmando a força das igrejas na política.
Por outro lado, o presidente Lula também buscou a simpatia dos evangélicos, enviando uma carta ao segmento e tomando posição contrária à legalização do aborto, tema sensível para muitos dentro da comunidade religiosa.
A discussão sobre a legalidade dessas ações é complexa. João Marcos Pedra, secretário-geral da Comissão de Direito Eleitoral da OAB-DF, alerta que a realização de atos políticos em igrejas pode ser considerada ilegal. Segundo ele, é permitido frequentar o culto, mas a campanha dentro do templo é vedada. Para caracterizar um ilícito, deve haver um abuso, um pedido implícito de voto e a utilização da estrutura religiosa visando obter votos.
Rubens Beçak, professor de direito da USP, observa que práticas semelhantes são comuns em outros contextos políticos, sugerindo que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) deveria regulamentar melhor essas situações.
