Reflexões sobre Bioquímica e Ensino
Em uma tarde morna de outono, no início dos anos 80, dentro de uma sala de aula marcada pelo pragmatismo, meu professor de Bioquímica lançou uma pergunta provocativa que reverberou entre nós, estudantes: vocês conseguem imaginar que as partículas de Alexandre o Grande podem estar presentes em nossos corpos? O impacto dessa indagação foi imediato e profundo, como um balde de água fria em nossas mentes ainda ingênuas.
A genialidade do meu professor estava não apenas no domínio do conteúdo, mas também na habilidade de instigar a curiosidade. Enquanto observava a perplexidade estampada em nossos rostos, ele se propôs a desmistificar essa questão bioquímica e filosófica.
Com a eloquência de um locutor de rádio, ele reformulou a pergunta: vocês recordam da famosa frase de Lavoisier, que afirma que na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma? A sala, agora repleta de incertezas, ficou em silêncio enquanto tentávamos conectar as partículas de Alexandre à Lei de Lavoisier.
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A Conexão entre ciência e filosofia
O professor não buscava desafiar crenças religiosas, mas sim nos guiar na compreensão do fenômeno da vida sob uma perspectiva bioquímica. Após anos de reflexão, posso afirmar que aquela aula foi um marco na minha formação, pois trouxe à tona a ideia de que somos parte do vasto objeto de estudo das ciências naturais.
A questão que pairava no ar era sobre a absorção dessas partículas do passado em nossos corpos, e como isso pode impactar nossa percepção de identidade e existência. Estrondosamente, compreendi que a presença de figuras históricas como Mussolini ou Hitler não tinha relevância em minha vida psíquica. O que verdadeiramente importa é o processo físico-químico que nos liga à vida.
Com o espírito de Heráclito de Éfeso, que defendia a ideia de que tudo está em constante transformação, tomei um caminho diferente. Mergulhei no Movimento Estudantil, buscando um ideal de igualdade. Contudo, essa paixão pela transformação me afastou das obrigações acadêmicas, o que gerou preocupação na minha professora de Bioquímica, que percebeu meu afastamento.
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A Importância de um Mentor
Em uma conversa direta, ela questionou se eu tinha condições de me dar ao luxo de abandonar a universidade, considerando que meus pais viviam com um salário mínimo. Fiquei perplexo. A professora argumentou que estava traindo a confiança de meus pais e que deveria ser um exemplo. Mais uma vez, senti como se um balde de água fria tivesse sido jogado sobre mim. Ela então me passou material didático e me convidou para trabalhar em seu laboratório, onde pude aplicar na prática o que aprendia em sala.
Com dedicação, tirei nota alta na prova e retomei minha rotina acadêmica, entendendo que a Bioquímica é fundamental para a vida humana e que a figura do professor é crucial nesse processo. Se não tivesse ouvido os conselhos dessa educadora, minha trajetória teria tomado um rumo bem diferente, talvez em um verdadeiro ‘inferno’ de arrependimentos.
A Fluidez da Vida e a Natureza
No mesmo dia em que meu professor nos lembrou sobre a decomposição e a transformação das substâncias, ele destacou nossa interdependência com a natureza. A reflexão sobre onde os fragmentos da vida podem parar é provocativa: assim como a água, as partículas podem ser reabsorvidas e transformadas, conectando-nos a tempos e lugares distantes.
A metáfora do rio de Heráclito, que ilustra a fluidez da vida e da história humana, nos instiga a decidir como queremos viver. A Bioquímica, através do legado do meu professor, não impõe verdades absolutas. Ao longo dos anos na UFSM, aprendi a admirar a sabedoria desse mestre que dominava tanto o conteúdo quanto a forma de transmitir conhecimento, unindo essência e fenômeno em suas aulas.
