Aperfeiçoamento da Perícia Aumenta a Importância do Documento na Inconfidência Mineira
O “Livro de Tiradentes”, um dos mais significativos documentos da Inconfidência Mineira, teve sua importância histórica revalorizada em 2023, após uma avaliação feita pela Polícia Federal. A perícia confirmou que as anotações contidas na obra foram escritas por Joaquim José da Silva Xavier, o famoso Tiradentes. Este reconhecimento traz uma nova luz ao feriado de 21 de abril, data que homenageia o líder das lutas pela liberdade no Brasil colonial.
Historiadores, intelectuais e autoridades de Minas Gerais estão entusiasmados com essa redescoberta e planejam dar um significado ainda maior à celebração deste ano. O objetivo é valorizar a figura de Tiradentes, que liderou a mais significativa resistência contra a opressão da Coroa Portuguesa, buscando a autonomia e os direitos dos brasileiros.
O livro, que esteve na Biblioteca Pública de Santa Catarina desde 1860, foi recentemente doado. O diretor da Biblioteca Nacional, Melo Morais, enviou 1.000 obras, incluindo a de Tiradentes, como forma de homenagear o estado catarinense. Curiosamente, a obra original, em francês, é intitulada “Recueil des Loix Constitutifes des Etatts-Unis”, ou “Coletânea das Leis Constituintes dos Estados Unidos”.
Doação e Histórico do Livro
Uma informação intrigante, revelada no processo de doação assinado por Melo Morais, indica que o livro foi retirado do processo de julgamento de Tiradentes, “dentro de um saco verde”. Isso destaca a conexão histórica entre o documento e a trajetória do inconfidente. Impresso na Suíça, o livro continha textos constitucionais das ex-colônias inglesas na América do Norte, que mais tarde foram fundamentais na elaboração da Constituição dos Estados Unidos, defendendo conceitos como república e liberdade política.
No período em que o livro circulava em Minas Gerais, os Estados Unidos já tinham declarado sua independência, em 4 de julho de 1776, surgindo como um novo paradigma de república, enquanto a Inglaterra ainda mantinha uma constituição não escrita.
Tiradentes, que ocupava o posto de alferes no exército, integrou o Regimento de Dragões de Minas Gerais desde 1780, até ser preso e condenado em 1789 por sua participação na Inconfidência. Um detalhe interessante é que ele dominava o francês, algo raro para a época, e fez anotações nas páginas do livro, evidenciando seu engajamento intelectual.
Solicitação de Devolução e Projeto de Lei
Em 1984, o então governador de Minas Gerais, Tancredo Neves, fez um pedido oficial ao governador de Santa Catarina, Esperidião Amin, solicitando a devolução do “Livro de Tiradentes”. Ele o classificou como “documento fundamental da nossa memória cívica e política”. Essa solicitação foi escrita pelo secretário de Cultura de Minas, José Aparecido de Oliveira, que ressaltou a importância do documento para a identidade mineira e a história do Brasil.
O pedido foi encaminhado ao Conselho Estadual de Cultura de Santa Catarina, onde foi realizado um estudo minucioso sobre a importância e o estado de conservação do livro, que apesar de suas transferências entre bibliotecas, ainda estava preservado. O relatório concluiu que, apesar de não ser possível ler o texto completo, a folha de rosto era legível, e o livro havia sofrido um processo de restauração cuidadoso nos últimos anos.
A Aprovação da Doação e Entrega do Livro
O projeto de lei para a doação foi enviado à Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc) e, após tramitação rápida, foi aprovado por uma diferença de apenas um voto, com a sanção da Lei 6333 no dia 19 de abril. O governador Amin então viajou a Belo Horizonte, acompanhado de deputados, para formalizar a entrega do livro em um ato solene.
Perícia Confirma a Autoria de Tiradentes
A Polícia Federal, ao analisar as anotações no livro, confirmou que eram realmente de Tiradentes. O laudo detalhou características dos manuscritos, como a lombada em couro e o estado das páginas. A perícia foi realizada por peritos da Instituição Nacional de Criminalística, que utilizaram tecnologia avançada para a avaliação.
Livros como “O Livro de Tiradentes” de Kenneth Maxwell e “Pequena História da Inconfidência de Minas Gerais” de Augusto de Lima Júnior, contribuíram para a contextualização do documento. Esses estudos ressaltam como o livro, com suas ideias revolucionárias, foi uma importante fonte de inspiração para os inconfidentes mineiros, que buscaram mudanças políticas e sociais em seu tempo.
Delegação Catarinense e Celebrações da Doação
Em 21 de abril de 1984, a delegação de Santa Catarina foi recebida com honras em Belo Horizonte, onde o governador Tancredo Neves fez questão de homenagear os catarinenses pela doação do documento, que agora se alinha a eventos que celebram a Inconfidência Mineira. Durante a solenidade, o governador Amin foi condecorado com a Medalha da Inconfidência Mineira, destacando a importância da doação para a memória histórica do Brasil.
Tiradentes, nascido em 1746, destacou-se como um dos principais ativistas políticos e militares da época, sendo um dos fundamentais protagonistas na luta pela liberdade do Brasil. Sua trajetória, marcada por desafios e sacrifícios, permanece viva na memória nacional, especialmente durante as celebrações dedicadas ao seu legado.
