Um Exôdo em Busca de Esperança
A grave crise social, política e de segurança que assola o Haiti tem provocado um êxodo em massa de seus cidadãos, que buscam, desesperadamente, uma nova vida no Brasil. Desde 2018, a violência provocada por gangues armadas e a deterioração das condições econômicas em um país de 11 milhões de habitantes têm empurrado famílias inteiras a abandonarem suas posses, incluindo lares e bens para recomeçar em terras brasileiras.
O Aeroporto Internacional de Viracopos, em Campinas (SP), tornou-se uma das principais portas de entrada para esse fluxo migratório. A Polícia Federal (PF) relata que até 600 haitianos chegam semanalmente em voos fretados ao terminal, mas não há uma explicação oficial sobre o volume desse movimento.
Jean Baptiste Silvano, um haitiano de 34 anos, compartilha sua história: “A situação é realmente complicada. Todos perderam suas casas, eles [gangues] quebraram minha casa, eu não tinha lugar para ficar. Meu irmão mora aqui. Quero conseguir um emprego e quero estudar medicina. Espero que tudo fique bem, aqui vou estar seguro”, afirmou, ao chegar ao Brasil e se reunir com seu irmão em Porto Alegre (RS).
Os Lutadores da Esperança
Com a inexistência de uma rota comercial direta entre o Haiti e o Brasil, um bilhete para um desses voos fretados pode custar até R$ 11 mil por passageiro. Dados da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) indicam que uma companhia aérea equatoriana tem concentrado parte significativa das operações com voos para Viracopos, realizando 34 voos entre 1º de janeiro e 8 de abril de 2026, data do último fretamento que trouxe haitianos.
De acordo com o Ministério das Relações Exteriores, a emissão de vistos para cidadãos haitianos tem aumentado gradualmente. O visto de reunião familiar se destacou, com um crescimento expressivo de 252,9% entre 2024 e 2025. Este tipo de visto permite que estrangeiros se reunam com seus parentes no Brasil, podendo ser solicitado em qualquer repartição consular brasileira, incluindo a Embaixada em Porto Príncipe.
No total, entre 1º de janeiro e 9 de abril de 2026, o Itamaraty confirmou a emissão de 9.575 vistos para haitianos. Contudo, o ministério alerta que a quantidade de vistos não reflete o número real de entradas no país. A documentação dos viajantes é checada por agentes da Polícia Federal nas fronteiras, e problemas no visto podem resultar na negação de entrada, mesmo para aqueles que possuem a documentação.
Desafios e Superações nas Novas Terras
Embora a maior parte dos haitianos chegue de forma regular ao Brasil, um incidente em março, em que um voo foi retido devido à identificação de vistos falsos de 113 haitianos, evidenciou as vulnerabilidades dessa rota migratória. A PF investiga o caso, mas não divulga detalhes sobre as investigações em andamento.
Após desembarcarem em Viracopos, muitos haitianos seguem para o Terminal Rodoviário do Tietê, em São Paulo, de onde partem para diversas cidades brasileiras, como Belo Horizonte (MG), Curitiba (PR), Florianópolis (SC) e Porto Alegre (RS). Para facilitar essa transição, algumas empresas disponibilizam ônibus exclusivos para os haitianos, ajudando a mitigar a barreira linguística.
Marcos Carel, um haitiano radicado em São Paulo há seis anos, tem sido um suporte fundamental para os recém-chegados. “Eu estou conhecido aqui, venho sempre”, diz, ressaltando sua missão de ajudar outros haitianos na compra de passagens e no deslocamento.
Acolhimento e Comunidade
Com o Haiti tendo o crioulo e o francês como línguas oficiais, a barreira do idioma é um dos maiores desafios enfrentados pelos imigrantes. Por isso, haitianos que já vivem no Brasil frequentemente vão até Viracopos para acolher e orientar os compatriotas. Guerby Sainte, doutorando na Unicamp, lidera uma associação que apoia a integração dos imigrantes, oferecendo aulas de português e orientações sobre o mercado de trabalho.
“Essas pessoas não chegam aqui por escolha, mas por necessidade extrema. O mercado de trabalho é difícil de acessar devido à barreira linguística”, diz Guerby. Os relatos de imigrantes refletem um desejo comum de reconstruir suas vidas em segurança, longe da violência e das incertezas que deixaram para trás.
Enquanto esperam seus ônibus em Viracopos, os haitianos sonham com um futuro melhor. Francisco Melisse, que chegou ao Brasil recentemente, expressou sua gratidão: “Aqui vocês são um povo realmente muito acolhedor. Estou muito feliz por ter viajado e agradeço pela recepção.”
