Mobilização em Defesa do Meio Ambiente
No próximo dia 21 de abril, durante o feriado nacional de Tiradentes, a Serra da Moeda será novamente o cenário de um dos mais significativos atos ambientais de Minas Gerais: o 19º Abrace a Serra da Moeda. Desde 2008, a ONG que organiza o evento, a Abrace a Serra da Moeda, espera reunir milhares de pessoas a partir das 10h na rampa de voo livre do Topo do Mundo, em Brumadinho, na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), para um abraço simbólico em defesa das nascentes e dos recursos hídricos da área.
Com o tema “Sem água não há futuro”, a edição deste ano pretende aumentar a conscientização sobre o agravamento das ameaças ambientais que cercam a serra, considerada crucial para o abastecimento hídrico de Brumadinho e da RMBH. Ao meio-dia, os participantes formarão um cordão humano no ponto mais alto da serra, simbolizando a união e o compromisso com a preservação da água e da vida.
Desafios Ambientais e a Importância da Mobilização
A presidente da ONG, Beatriz Vignolo, enfatiza a relevância da mobilização diante do cenário atual. “A Serra da Moeda é fundamental para a segurança hídrica da nossa região. Diante das ameaças crescentes, a mobilização da sociedade se torna ainda mais necessária para proteger as nascentes e garantir água para as futuras gerações”, destaca.
Apesar do estabelecimento do Monumento Natural Municipal da Mãe D’Água em 2013, as nascentes continuam ameaçadas. Projetos de mineração, expansão urbana e grandes empreendimentos industriais avançam sobre áreas sensíveis, colocando em risco os aquíferos subterrâneos da região.
Um exemplo claro dessa pressão é a fábrica da Coca-Cola, localizada em Itabirito, que, há mais de dez anos, extrai mais de 2 milhões de metros cúbicos de água por mês das nascentes para atender à demanda de seus poços. Como resultado, comunidades como Suzano e Campinho, em Brumadinho, enfrentam sérios problemas de escassez hídrica. Desde 2015, os moradores de Campinho recebem 40 mil litros de água diariamente, por meio de caminhões-pipa da empresa, para suprir suas necessidades.
Minas e a Pressão Sobre os Recursos Hídricos
Além dos impactos da fábrica da Coca-Cola, outras minas na região também geram preocupação entre os ambientalistas. A mina Serrinha, adquirida pela Vale em 2018, planeja sua reativação, o que pode levar ao rebaixamento do lençol freático da Mãe D’Água, a principal nascente da encosta da serra. Por outro lado, a Mina Pau Branco, da Vallourec, ampliou sua produção, intensificando os impactos ambientais e os riscos associados à barragem Santa Bárbara, que afeta diretamente a área de Piedade do Paraopeba.
“Estamos enfrentando um conjunto de pressões simultâneas sobre um território extremamente sensível. Quando essas atividades avançam sem o devido controle, os riscos passam a afetar não apenas o meio ambiente, mas também a segurança econômica e hídrica da população”, alerta Beatriz.
A ONG também destaca a identificação recente de atividades de mineração clandestina na região, além de fragilidades na fiscalização ambiental, que podem agravar ainda mais a situação.
Projetos Imobiliários e o Futuro da Serra da Moeda
Outro fator que preocupa a preservação dos recursos hídricos da Serra da Moeda é o avanço de grandes empreendimentos imobiliários, como o CSUL Lagoa dos Ingleses, que prevê a construção de moradias para cerca de 200 mil pessoas e a captação de água no aquífero local. Beatriz Vignolo critica a concessão da licença ambiental para o projeto sem a realização de um estudo de impacto hídrico: “Estamos questionando a legalidade desse processo junto ao Ministério Público e aguardamos uma decisão judicial sobre a realização de uma perícia técnica”, afirma. “Enquanto os lucros são privatizados, os prejuízos recaem sobre toda a sociedade”.
A manutenção do Monumento Natural Municipal da Mãe D’Água também enfrenta disputas judiciais, segundo Vignolo, e ainda carece de reconhecimento estadual, o que evidencia a fragilidade da proteção na área que abriga nascentes, paisagens naturais e sítios arqueológicos relevantes.
Mobilização Social e a Necessidade de Ação Coletiva
Pesquisas hidrogeológicas revelam um cenário preocupante, com a diminuição dos aquíferos ao longo das últimas décadas e a retirada de água em níveis superiores à capacidade de recarga, o que pode comprometer o abastecimento futuro das comunidades. Para a organização, a mobilização social é um instrumento vital na defesa ambiental.
Na última edição do evento, realizada em 2025, houve o cancelamento, sem justificativa, de ônibus que transportariam alguns participantes, prejudicando a presença de várias comunidades. Para este ano, a mobilização está sendo organizada com o apoio da iniciativa privada e da sociedade civil, reforçando a independência do movimento.
“O Abrace a Serra da Moeda é mais do que um evento; é um ato coletivo de consciência. É a sociedade manifestando que não aceita ver suas fontes de água ameaçadas e está disposta a defender esse patrimônio”, conclui Beatriz Vignolo.
Informações do Evento
Quando: 21 de abril de 2026, terça-feira, a partir das 10h.
O abraço simbólico será realizado pontualmente ao meio-dia.
Onde: rampa de voo livre no Topo do Mundo, em Brumadinho.
A organização disponibilizará ônibus gratuitos para levar moradores de comunidades locais de Brumadinho e região até o Topo do Mundo. Locais e horários de saída dos veículos serão divulgados no Instagram oficial do evento @abraceaserra.
