Roupas de Luxo e Trabalho Precarizado: A Realidade em Minas Gerais
Um recente relatório da Superintendência Regional do Trabalho (SRT) revelou a chocante discrepância nos preços de roupas de luxo vendidas em Minas Gerais. As marcas Lore Confecções e Anne Fernandes, localizadas na região Oeste de Belo Horizonte, foram investigadas por utilizar mão de obra em condições análogas à escravidão. O documento, ainda sob análise, será enviado ao Ministério Público Federal.
Um exemplo alarmante cita uma peça que era vendida por até R$ 1.143, mas foi adquirida por apenas R$ 33 em oficinas terceirizadas. Outra situação revela que um conjunto, comercializado por cerca de R$ 900, custava apenas R$ 53 para ser produzido. Ao todo, 17 trabalhadores foram identificados no relatório como parte da mão de obra explorada, com 14 deles sendo resgatados, incluindo uma adolescente.
O documento destaca que a marca Lore é considerada “beneficiária direta da mão de obra precarizada”, enquanto a Anne Fernandes é acusada de impor um modelo de produção que explorava oficinas como intermediárias de mão de obra barata.
Posicionamentos das Marcas
Em uma nota oficial, a Lore esclareceu que não mantém vínculo com as oficinas mencionadas desde o fim de 2025. “Os contratos foram firmados com empresas autônomas para fornecimento de produtos acabados. Não havia ingerência na gestão da produção ou da mão de obra por parte da nossa companhia”, destacou a empresa.
Por sua vez, a Lagoa Mundaú, responsável pela marca Anne Fernandes, manifestou repúdio a qualquer forma de exploração laboral. “Após a denúncia em setembro de 2025, agimos com celeridade e rigor. Mesmo antes da conclusão do processo, rescindimos o contrato com o fornecedor em outubro de 2025, evidenciando nossa política de zero tolerância”, informou a empresa.
Condições Degradantes e Trabalhadores Imigrantes
A investigação apontou que as confecções estavam situadas em Betim e Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, funcionando em condições extremamente degradantes. As oficinas foram alvo de fiscalização após uma denúncia anônima sobre a presença de crianças, o que chamou a atenção das autoridades.
Carlos Calazans, superintendente regional do Trabalho em Minas Gerais, enfatizou que os fiscais encontraram trabalhadores imigrantes, principalmente bolivianos, vivendo e laborando em condições precárias. “Na oficina visitada, encontramos bolivianos e crianças em ambientes insalubres, onde as condições de alojamento eram deploráveis. O atendimento à saúde e à alimentação era negligenciado, caracterizando um quadro de trabalho degradante”, afirmou.
Crianças em Situação Vulnerável
Na primeira oficina inspecionada, localizada no bairro Cruzeiro do Sul em Betim, o Conselho Tutelar identificou duas crianças em situação de violação de direitos. Uma delas relatou que cuidava da irmã mais nova e de um bebê enquanto os adultos trabalhavam. No mesmo local, três bolivianos foram identificados como proprietários da confecção, além de um trabalhador sem registro formal. As condições eram alarmantes, com instalações improvisadas e a presença de materiais inflamáveis.
A segunda oficina, localizada em Contagem, abrigava outros 14 trabalhadores bolivianos, incluindo uma adolescente, que também enfrentavam circunstâncias semelhantes. Muitos dos trabalhadores estavam endividados com o empregador, enfrentando descontos em seus salários, que eram inferiores ao mínimo, mesmo com jornadas superiores a 12 horas diárias.
Práticas de Trabalho Irregulares
Os auditores fiscais relataram que as oficinas atuavam como prestadoras de serviço quase exclusivas para as marcas de moda, sem autonomia econômica. As empresas forneciam os materiais, os modelos e as especificações, enquanto os custos de produção ficavam a cargo das confecções.
O relatório ainda menciona que representantes das marcas visitavam as oficinas frequentemente para supervisão da produção. Em um dos casos, uma funcionária da Lore realizava visitas semanais, e uma representante da Anne Fernandes também fazia inspeções regulares, conforme estipulado em contrato. Para atender à demanda, uma das oficinas conseguia produzir até três peças por hora, levando à contratação de mão de obra sem registro e jornadas excessivas.
Por fim, a Superintendência Regional do Trabalho declarou que apenas após a conclusão do processo administrativo será possível determinar a responsabilização direta das empresas envolvidas. Os proprietários das oficinas já receberam multas que podem chegar a R$ 100 mil e poderão responder criminalmente pelas irregularidades.
