Uma Nova Era na Gastronomia Mineira
A cena é familiar: alguém se aproxima de Leo Paixão, reconhecendo-o imediatamente, e logo pede uma foto. Em poucos minutos ao lado do chef, nota-se que ele transcendeu o papel de um simples cozinheiro, tornando-se uma figura pública cuja influência vai muito além dos restaurantes. Leo Paixão é agora um nome conhecido na gastronomia brasileira, especialmente em Belo Horizonte.
O reconhecimento que Leo desfruta não é fruto do acaso. À frente de cinco estabelecimentos na capital mineira, que variam desde a comida ítalo-mineira até a portuguesa, como o renomado Glouton, ele construiu um grupo forte e influente em Minas Gerais. Mais do que isso, Leo desempenhou um papel fundamental em projetar a cozinha mineira para o cenário nacional e internacional, levando ingredientes e técnicas locais a novos contextos, e ampliando a percepção sobre essa rica gastronomia.
Frequentemente associado à chamada “nova gastronomia mineira”, Leo é incisivo ao rejeitar esse rótulo. Ele critica a ideia de que a cozinha mineira é nova: “Não dá para dar outro nome para uma cozinha que existe há décadas. Não podemos chamar de nova”, afirma. Ele ressalta que a cozinha mineira é uma herança de gerações, principalmente de mulheres que cozinharam por toda a vida. O que os chefs contemporâneos fazem, segundo ele, é observar a tradição sob uma nova perspectiva, modernizando e adicionando técnicas, mas sempre mantendo as raízes intactas.
A visibilidade de Leo foi impulsionada ainda mais por sua participação nas três edições do reality show Mestre do Sabor, transmitido pela Rede Globo entre 2019 e 2021. Essa experiência o ajudou a levar sua interpretação da cozinha mineira para todo o Brasil, ampliando o alcance de sua obra.
A Ascensão Digital de Leo Paixão
Durante a pandemia, Leo viu sua presença digital se expandir como nunca. Ele começou a compartilhar receitas nas redes sociais, usando uma linguagem acessível que conquistou um público ainda maior. “Eu percebi que podia comunicar com muito mais gente sem complicar”, revela. Esse movimento o transformou em uma verdadeira celebridade gastronômica, transitando com facilidade entre a televisão, o ambiente digital, a alta gastronomia e, em breve, lançando seu primeiro livro na coleção Chefs Brasileiros, da Editora Senac São Paulo.
Antes de alcançar esse patamar, a trajetória de Leo foi marcada por escolhas complexas. Formado em Medicina pela UFMG, ele começou a cozinhar como um hobby, influenciado por sua família. “Não havia outra possibilidade”, lembra. No entanto, conforme a paixão pela gastronomia cresceu, Leo tomou uma decisão radical: ele decidiu abandonar a medicina e seguir o caminho da cozinha.
Da Medicina à Gastronomia Francesa
A relação de Leo com a cozinha remete à sua infância. Após a separação dos pais, ele foi morar com a mãe e os avós, onde seu avô, Márcio Paixão, se tornou sua principal influência. “Ele é a minha grande referência. Passava horas na cozinha com ele”, conta Leo. Desde criança, ele experimentava receitas, combinando sabores com curiosidade. O amor pela culinária começou cedo e se tornou uma parte essencial de sua identidade.
Em 2009, Leo decidiu mudar-se para Paris para estudar na renomada escola Ferrandi, onde mergulhou na gastronomia francesa, passando por cozinhas de chefs renomados como Joël Robuchon. Essa formação técnica moldou sua abordagem na cozinha, embora sua essência belo-horizontina sempre estivesse presente.
Ao retornar ao Brasil em 2013, Leo abriu o Glouton, seu primeiro restaurante, que rapidamente se destacou e se tornou um dos mais premiados de Minas Gerais. O estabelecimento foi eleito como restaurante revelação e conquistou uma estrela no Guia Quatro Rodas, referência nacional da época. Desde então, o Glouton tem acumulado prêmios e reconhecimentos, contribuindo para a consolidação de Belo Horizonte como um importante destino gastronômico.
Uma Nova Visão para a Gastronomia
O sucesso do Glouton abriu portas para novos empreendimentos e uma mudança de papel para Leo. De chef, ele se tornou empresário, tomando decisões que vão além do fogão. Esse processo exigiu um ajuste em sua mentalidade, levando-o a entender a importância de separar criação de gestão. Leo percebeu que a experiência do cliente deveria estar no centro de sua operação. “Se a pessoa quer adaptar um prato, ela pode. A satisfação dela é mais importante do que o meu ego”, afirma.
Sobre o que faz um restaurante ser bem-sucedido atualmente, Leo defende a importância de começar pequeno e crescer de maneira constante. Ele acredita que errar faz parte do processo, contanto que se aprenda com os erros. Para Leo, prêmios e listas de reconhecimento são importantes, mas o que realmente conta é o retorno do cliente. “Nada substitui o cliente que volta. O boca a boca ainda é o mais forte”, ressalta.
O Legado de Leo Paixão
Além de sua carreira nos restaurantes, Leo se dedica a projetos sociais. Ele é responsável pelo INHAC, Instituto de Hospitalidade e Artes Culinárias, em Belo Horizonte, que oferece formação técnica gratuita para jovens em situação de vulnerabilidade. O projeto visa ampliar o acesso ao mercado de trabalho e reforçar valores de excelência e disciplina.
Quanto ao futuro, Leo não busca crescimento acelerado, mas sim um aprofundamento em suas iniciativas. Planeja escrever um livro com receitas familiares, traduzindo tradições culinárias para uma linguagem contemporânea. “Não é só sobre o que eu recebo, mas sobre o que eu posso devolver”, afirma Leo, reforçando seu compromisso com Belo Horizonte como um centro vital de cultura e gastronomia.
Leo Paixão continua a ajustar sua trajetória, equilibrando família, cozinha, gestão e um forte propósito social, enquanto redefine o que significa ser um chef nos dias de hoje.
