Um Marco da Memória e da Resistência
Belo Horizonte — No dia 1º de abril de 2026, exatamente 62 anos após o golpe militar que instaurou um regime de exceção no Brasil, o edifício localizado na Avenida Afonso Pena, 2351, no Centro de Belo Horizonte, tornou-se um símbolo de memória e resistência. Este prédio, projetado pelo arquiteto Hélio Ferreira Pinto em 1958, abriga atualmente o Memorial dos Direitos Humanos Ocupado, que foi a antiga sede do Departamento de Ordem Política e Social de Minas Gerais (DOPS-MG) e, a partir de 1970, do DOI-Codi (Departamento de Operações de Informações — Centro de Operações de Defesa Interna).
Durante os anos de ditadura civil-militar (1964-1985), o local se destacou como um dos principais centros de repressão política em Minas Gerais. O edifício é lembrado por atos de violência e repressão, que incluíram prisões arbitrárias e torturas que afetaram trabalhadores, artistas e militantes de esquerda.
Segundo estudos realizados pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e depoimentos coletados por meio de dossiês de tombamento, o subsolo do prédio abrigou celas e salas de interrogatório onde práticas brutais, como pau de arara e choques elétricos, eram comuns. “Cada parede desse lugar tem uma memória”, desabafou Oraldo Paiva, um aposentado que vivenciou a tortura e hoje faz parte do grupo que mantém o memorial ativo.
Um Legado de Direitos Violados
Estimativas indicam que dezenas de pessoas passaram por ali, e a história de figuras como o ex-governador Fernando Pimentel está entre os muitos relatos que emergem desse espaço. Após a extinção do DOPS em 1989, o prédio foi reutilizado para diferentes finalidades, incluindo uma delegacia e uma cadeia feminina. Contudo, a arquitetura imponente do local, que simboliza um passado de violações, foi preservada.
A transformação do prédio em um memorial é uma demanda antiga. Em 2000, a Lei Estadual nº 13.448 foi sancionada, criando oficialmente o Memorial dos Direitos Humanos no antigo espaço do DOPS. O tombamento municipal, ocorrido em 2013, e o estadual em 2016, reforçaram seu status como patrimônio histórico. No entanto, a luta por tombamento federal ainda está em andamento, atravessando disputas jurídicas com o Ministério Público Federal.
Reabertura e Ação Coletiva
Em 2018, o espaço foi inaugurado como “Casa da Liberdade”, mas não funcionou plenamente. A gestão de Romeu Zema resultou em um abandono que durou anos. Em resposta, movimentos sociais, por meio do perfil @ocupeomemorial, ocuparam o edifício em 1º de abril de 2025, reabrindo-o como Memorial dos Direitos Humanos Ocupado. Desde então, o espaço passou a receber visitas mediadas, atividades culturais e exibições de filmes.
A ocupação foi feita por cerca de 80 jovens, liderados pelo Movimento de Luta por Bairros e Favelas (MLB). O ato de ocupar o espaço não tinha caráter de moradia, mas sim de reivindicar uma reabertura oficial do memorial. Os ocupantes, que não enfrentaram resistência significativa, conseguiram estabelecer um espaço de demonstração e educação.
Importância da Memória Coletiva
Movimentos sociais promovem eventos para lembrar o golpe de 1964 e celebrar a reabertura do espaço. O ato de 1º de abril é um marco que busca não apenas relembrar a história, mas também garantir que as violações de direitos humanos não sejam esquecidas. “Ditadura nunca mais” é um dos lemas repetidos nas mobilizações.
A estudante de História Júlia Carolina da Silva Andrade, 23 anos, ressaltou a importância do memorial para as novas gerações: “É fundamental que as memórias das pessoas que sofreram aqui sejam preservadas. A ocupação é uma forma de manter viva a história”, comentou.
Visitas ao Memorial e Acesso ao Público
Para aqueles que desejam conhecer o Memorial dos Direitos Humanos Ocupado, as visitas são realizadas de quinta a domingo, com duração média de 1h30. A inscrição deve ser feita previamente, e o espaço oferece uma oportunidade única de compreender a história do Brasil e de Belo Horizonte. As doações voluntárias são bem-vindas e ajudam a manter o funcionamento do espaço, a alimentação dos colaboradores e a limpeza.
