Estudo Revela Efeitos da Desigualdade de Gênero na Saúde Mental dos Filhos
Pesquisadores do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) realizaram um estudo abrangente que analisou dados de 2.852 jovens ao longo de mais de 20 anos. A pesquisa, publicada na revista Cambridge Prism: Global Mental Health, levantou questões cruciais sobre como a desigualdade entre pais pode influenciar a saúde mental das crianças.
Os participantes foram acompanhados desde o nascimento, em uma coorte de nascimentos da cidade de Pelotas, no Sul do Rio Grande do Sul, até completarem 18 anos. Os pesquisadores desenvolveram o Índice de Desigualdade de Gênero do Casal (IDGC), que avalia três dimensões fundamentais: nível de escolaridade, renda e autonomia reprodutiva da mãe. A pesquisa concluiu que quanto maior a desigualdade nestes aspectos, menor o índice de igualdade e, consequentemente, o bem-estar dos filhos.
A Importância de Ambientes Familiares Equilibrados
Os resultados foram significativos: adolescentes que cresceram em lares mais igualitários apresentaram, em média, 1,5 ano a mais de escolaridade, uma pontuação cerca de 10 pontos acima na escala de qualidade de vida da OMS e um risco 36% menor de desenvolver depressão.
Essas descobertas se aplicam a ambos os gêneros, evidenciando que um ambiente familiar justo não beneficia apenas as meninas. A pesquisa revelou que 5,9% dos jovens avaliados apresentaram critérios para depressão aos 18 anos, com uma prevalência maior entre aqueles que vivenciaram desigualdades significativas entre os pais durante sua infância e adolescência.
A psiquiatra e uma das autoras do estudo, Clarissa Severino Gama, destaca que a igualdade de gênero vai além da justiça social. “Quando falamos de igualdade de gênero neste estudo, não estamos tratando apenas de justiça social, mas também de educação, saúde mental e do futuro das crianças”, enfatiza.
Retratos das Famílias Estudadas
O estudo também apresentou um retrato das famílias analisadas. Aproximadamente 62,9% dos casais tinham o mesmo nível de escolaridade ou as mulheres possuíam uma formação superior. Entretanto, apenas 4,9% das mães tinham uma renda igual ou superior à dos pais. Além disso, 69,7% das mulheres se tornaram mães após os 20 anos e realizaram mais de oito consultas pré-natais durante a gravidez.
A análise confirmou que uma maior igualdade entre pai e mãe está relacionada a melhores resultados educacionais e à preservação da saúde mental dos filhos na transição para a vida adulta. Em contrapartida, ambientes com maior disparidade foram associados a taxas elevadas de depressão, especialmente quando o IDGC era baixo.
A pesquisa serve como um alerta sobre a importância de promover a igualdade de gênero nas relações familiares, pois suas implicações se estendem para a saúde mental e o desenvolvimento das próximas gerações.
