O Instituto de Radium e o pioneirismo no combate ao câncer
Marie Curie, física e química polonesa naturalizada francesa, foi a primeira mulher a receber o Prêmio Nobel e a única a conquistá-lo em duas áreas distintas: Física, em 1903, compartilhado com seu marido Pierre Curie, e Química, em 1911. Reconhecida mundialmente por ter descoberto os elementos polônio e rádio, ela revolucionou o estudo da radioatividade, abrindo caminho para avanços na medicina, especialmente no tratamento do câncer.
Em Belo Horizonte, sua visita histórica em 1926 teve como ponto central o Instituto do Radium, o primeiro centro dedicado exclusivamente ao tratamento oncológico no Brasil. Fundado em 1922 como uma fundação autônoma, o instituto tinha como missão estudar o rádio e os raios X, além de divulgar informações sobre o câncer e promover pesquisas científicas para melhorar o tratamento da doença.
Localizado nos fundos do Parque Municipal, ao lado da Faculdade de Medicina da UFMG, o Instituto do Radium ocupava uma área de 2.000 metros quadrados e contava, para a época, com uma infraestrutura moderna. Com 120 leitos, laboratórios de pesquisa clínica, anatomia patológica, microbiologia e química biológica, o hospital oferecia tratamentos pioneiros como a Roentgenterapia, que utilizava raios X, e a Curieterapia, método que aplicava fontes radioativas diretamente nos tumores para destruir as células doentes com menor impacto nos tecidos saudáveis ao redor.
A visita que marcou Belo Horizonte e a oncologia brasileira
Em 17 de agosto de 1926, Marie Curie esteve em Belo Horizonte acompanhada da filha Irène. Recebida pelo professor Eduardo Borges da Costa, diretor da Faculdade de Medicina e idealizador do instituto, além do vice-diretor Samuel Libânio e do secretário-tesoureiro Levy Coelho, a cientista conheceu as instalações e assinou o livro de visitas, documento preservado até hoje no Centro de Memória da UFMG.
Mais do que uma formalidade, essa visita teve impacto direto na saúde pública local. Marie Curie doou duas agulhas de rádio ao Instituto do Radium, elemento químico raro e de alto custo na época, essencial para viabilizar os primeiros tratamentos de Curieterapia na capital mineira. Essa contribuição acelerou o início dos tratamentos radioterápicos, salvando vidas e posicionando Belo Horizonte como um centro de referência no tratamento do câncer no país.
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Após retornar ao Rio de Janeiro, Marie Curie enviou uma carta de agradecimento ao professor Borges da Costa, manifestando sua gratidão pela recepção calorosa e pelo empenho dos profissionais da cidade, reforçando o vínculo entre a cientista e a comunidade médica mineira.
Transformações do Instituto e legado atual
Em reconhecimento ao fundador, o hospital foi renomeado Instituto Borges da Costa em 1950 e incorporado à UFMG em 1967. O prédio histórico, contudo, foi desativado em 1977 devido a problemas estruturais. Entre 1980 e 1998, a estrutura serviu como moradia estudantil.
Hoje, a UFMG desenvolve um projeto para restaurar e modernizar o edifício, com o objetivo de transformá-lo em um hospital oncológico de referência para atendimentos médicos e tratamentos ambulatoriais. A iniciativa representa a continuidade do pioneirismo iniciado com a fundação do Instituto do Radium quase um século atrás.
Retrato da cientista durante a visita a Belo Horizonte
No dia seguinte à visita, Marie Curie proferiu uma palestra sobre radioatividade e suas aplicações médicas no anfiteatro da Faculdade de Medicina da UFMG. Entre os presentes estavam personalidades como Juscelino Kubitschek, Guimarães Rosa e o jovem estudante Pedro Nava, que mais tarde se tornaria importante escritor.
Pedro Nava descreveu a cientista com uma “simplicidade desconcertante” diante da elite acadêmica e social da época. Ao contrário da imagem glamorosa esperada, Curie apareceu modesta, vestindo um traje simples e mostrando as mãos marcadas pelo trabalho com compostos químicos. Seu conhecimento, porém, transformava o ambiente: a plateia se encantou com sua autoridade e clareza ao explicar temas complexos.
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Fotos oficiais registraram o momento em que ela posava ao lado de grandes nomes da medicina mineira, consolidando sua passagem marcante por Belo Horizonte.
Marie Curie: pioneira que mudou a história da ciência e da saúde
Nascida em 1867 na Polônia, Marie Curie dedicou a vida à ciência, tornando-se uma das maiores pesquisadoras da história. Além das descobertas do polônio e do rádio, ela liderou os primeiros estudos para o tratamento de tumores com isótopos radioativos, abrindo caminho para a radioterapia moderna.
Fundou o Instituto Curie em Paris e sua filial em Varsóvia, centros que permanecem referências em pesquisa médica. Durante a Primeira Guerra Mundial, desenvolveu unidades móveis de radiografia para hospitais de campanha, ampliando o acesso a diagnósticos essenciais.
Seus legados científicos e humanos atravessam gerações e permanecem vivos, especialmente em instituições como o Instituto de Radium em Belo Horizonte, que continua a inspirar avanços no cuidado oncológico no Brasil.
